HISTÓRIAS DO T

Bater em Jesus, cê num vai não. Vai morrer seu cabra safado!

Bater em Jesus, cê num vai não. Vai morrer seu cabra safado!

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos


Nos anos sessenta, e até lá pela metade dos anos setenta, na fase de ouro do circo, era comum a presença das companhias de espetáculos percorrendo as cidades do interior. Lembro-me perfeitamente bem, que haviam os grandes e luxuosos circos, como o Norte Americano, o Circo Garcia, e a companhia dos Irmãos Roblatini, entre outros. Quando chegavam na cidade, era uma festa. No dia da grande estréia, havia o suntuoso desfile com os artistas, os pernas-de-pau, a bandinha, as feras nas jaulas, e claro, os palhaços.


Mas naquela época, a maioria dos circos que aportavam por estas bandas, eram companhias pequenas, os chamados circos mambembes. Entre eles, alguns que fizeram história, voltavam sempre. O circo do Lambarí e o circo do Faísca, por exemplo, eram muito divertidos. Sempre inventavam uma nova atração para cada temporada. Havia a Monga, a Mulher Gorila, as lutas livres e as famosas peças de teatro.


Na época da Semana Santa, essas pequenas companhias encenavam a Paixão de Cristo, e no restante do ano, apresentavam conhecidos e típicos dramalhões daquela época, como “E o céu uniu dois corações”, “Lampião e Maria Bonita”, “O Coronel e o Lobisomem”, “Cabocla Tereza”, e ia por aí.


Conta o escritor Wilson Granella, que antes de trabalhar na antiga Rádio Cultura de Fernandópolis, a pioneira e famosa ZYR 90, o locutor Deomir Bastos, dono de uma das mais belas vozes do rádio da época, era artista circense. Em determinada fase da carreira no circo, ainda no Rio de Janeiro,  ele interpretava Jesus, na encenação da Paixão de Cristo. Até aí, tudo bem.


Acontece porem, que Deomir era um fumante inveterado, diziam alguns que ele chegava a acender um cigarro no outro. Um belo dia, durante a encenação da Paixão de Cristo, quando já estava preso à cruz, lá estava ele lá no alto pitando um cigarro, só esperando cair o pano, para a apresentação do quarto e último ato. De repente abriram-se as cortinas, e ele às pressas, cuspiu o cigarro em direção ao chão. Por uma grande infelicidade, a maldita bituca caiu bem entre seus pés, amarrados junto à cruz e ficou ali fritando. Desesperado e se contorcendo em dores, sussurrava para a atriz que interpretava Maria, ajoelhada aos pés da cruz:

-- Maria, o cigarro... Maria, o cigarro! E a atriz, compenetrada em seu papel, impassível, nem aí com ele. Então, não teve jeito. Desesperado, gritou – Maria, pelamor de Deus, tira aí o cigarro que tá fritando os meus pés!


Tempos depois, o famoso Circo do Faísca, instalado na antiga Avenida da Brasilândia, apresentava no final do espetáculo, o conhecido drama “E o céu uniu dois corações”. Os artistas começam a encenação da história, que narrava o romance secreto da mulher de um fazendeiro, com um rapaz da cidade.  Desconfiado, o marido prepara uma armadilha para pegar sua mulher em flagrante com o amante. E quando isso aconteceu, desvairado e aos berros, ele sacou o revólver e apontando na direção dos amantes, vociferando...


-- Vai morrer,  sua traidora infeliz...  vai morrer seu canalha indecente! E disparou vários tiros (de festim, claro) sobre o casal que ensangüentado (com aquele sangue de massa de tomate),  tombou abraçado sobre a cama. Consumado o “crime”, o assassino ainda de arma em punho, fica andando a esmo pelo palco. Bastou o “fazendeiro” dar as costas, para que de repente, dois sujeitos grandões que estavam na platéia saltassem no palco, imobilizando o “assassino” e lhe aplicando uma saraivada de socos, tapas  e chutes.


Foi um Deus nos acuda. Foi preciso a rápida intervenção do contra regra, do dono do circo, dos funcionários e até dos “artistas mortos”, para salvar a pele do coitado do ator que fazia o papel do “fazendeiro assassino”. O coitado  quase foi linchado ali ao vivo, diante da platéia, pelos dois expectadores “justiceiros”. Inacreditável.

Semana Santa e o Circo do Lambarí, armado na entrada principal de Santa Fé do Sul, anuncia aos quatro ventos a peça a “Paixão de Cristo”. Claro que o circo lotou. E entre o respeitável público, logo na primeira fileira de cadeiras junto ao picadeiro, lá estava Jerônimo Batista, um baiano forte e sistemático que só vendo.


Começa o espetáculo e logo no segundo ato, quando Jesus Cristo entra no picadeiro carregando a cruz, um “centurião romano” começa a açoitá-lo. Aplica uma chibatada... duas chibatadas... e Jerônimo Batista, feito um gato,  pula no picadeiro e parte de dedo em riste, em direção ao centurião:


-- Bater em Nosso Senhor Jesus Cristo, na frente de Jerônimo Batista, tu num vai não, seu cabra safado! Vou ti furar tudinho na peixeira, bichin!


Vendo que o bom baiano não estava para brincadeira, o artista centurião largou a chibata e azulou em pânico para os fundos do circo, enquanto o pessoal da trupe e até o povo da platéia, segurava e tentava acalmar o furioso Jerônimo Batista. Duro não foi segurar o injuriado Jerônimo. Duro mesmo, foi  explicar para o bom baiano que aquilo “era tudo de mentirinha”, ochente! Semana que vem tem mais. Até lá.

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