Carlos Eduardo

O machismo mata

O machismo mata

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor

Publicada há 7 anos

Não é fácil ser mulher em um país como o Brasil, no qual impera a cultura do machismo. Como se não bastasse a angústia, o sofrimento e a humilhação sofridos pela vítima em situações de abuso, é comum ela ser culpabilizada, na visão rasa de alguns, evidenciando uma injusta e covarde inversão de valores.


Em casos de assédio sexual ou estupro, os julgamentos de homens e, pasmem, até de mulheres, são recheados de comentários preconceituosos tais como: “também, ela estava usando roupas curtas”, “tenho certeza que ela provocou”, “ela deve estar mentindo”, “por que não saiu correndo?”, “é uma oportunista, quer ganhar algo com isso, conheço aquele homem que ela está acusando, ele é uma pessoa de bem” (esse bordão, “pessoa de bem” já virou meme na internet). Quando a mulher sofre violência física de seu parceiro, há aquela máxima: “em briga de marido e mulher, não se deve meter a colher”. Deve-se interferir sim, e de forma urgente, pois nesse caso, pode-se evitar um feminicídio ou impedir uma agressão física, passível de provocar sequelas graves e debilitantes na pessoa agredida.


De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados no dia 09 de agosto de 2018, uma média de 530 mulheres, vítimas da violência doméstica, acionaram, por dia, a Lei Maria da Penha no Brasil, em 2017. Foram contabilizados 1.136 casos de feminicídios - assassinato de uma mulher por sua condição de mulher, como por exemplo, quando um homem mata sua ex-parceira por não aceitar o fim do relacionamento, motivado por um sentimento de posse sobre ela (comum no machismo). Também foi registrada uma média de 164 casos de estupros por dia no país no ano passado, com taxa de subnotificação estimada entre 7,5% a 10% (ocorrências que não são denunciadas às autoridades públicas). Por isso, é possível que o total de casos seja superior a 500 mil por ano (maior que a população de uma cidade como São José do Rio Preto, por exemplo).


Os estados que registraram o maior número de estupros foram Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Rondônia. Por falar em Rondônia, segue um caso verídico que ocorreu com uma jovem daquele estado, publicado no portal da internet Universo On Line (UOL), no dia 30 de setembro de 2018:

C.B.B. é uma jovem de 24 anos que viu e sofreu vários tipos de abusos em sua vida. Quando criança, presenciou sua mãe apanhar de seu pai. Depois, voltou a testemunhar as mesmas cenas, só que dessa vez sua mãe era agredida fisicamente pelo segundo marido. Este, inclusive, chegou a dar-lhe um soco no rosto quando C.B.B. tinha 17 anos. Resolveu sair de casa e foi morar em Florianópolis – SC, quando quase foi estuprada por um amigo, até então de sua confiança. Segundo seu relato, só conseguiu evitar a tentativa de estupro porque seu amigo estava muito bêbado. No entanto, foi ameaçada de morte caso o denunciasse à polícia. Ficou com medo e desistiu da denúncia (situação comum nesses casos).


C.B.B. mudou-se para São Paulo - SP, passou por alguns empregos até se estabelecer em um restaurante, trabalhando como garçonete. Adivinhem o que aconteceu? Seu chefe começou a assediá-la sexualmente. Passava as mãos em suas pernas e tentava beijá-la à força. Comentou com terceiros que estava pensando em processá-lo, porém, o chefe ficou sabendo de sua intenção e passou a chantageá-la, dizendo-lhe que estava inventando histórias e caso quisesse, ele a demitiria. C.B.B. aproveitou a oportunidade e aceitou a proposta. Foi demitida. Processou o chefe e, recentemente, ganhou a ação. Ufa, acabou? Não! Seu namorado se mostrou um homem muito ciumento, passou a controlá-la de forma paranoica, mantendo um relacionamento abusivo. Um dia ela descobriu que ele a traía e rompeu o namoro.


Histórias como as de C.B.B. não são raras, mas ao ler a reportagem, fiquei curioso para ver os comentários dos leitores. Pois bem, sabem aqueles comentários inoportunos e preconceituosos, citados no começo do artigo, que costumam “julgar” casos como esses? Identifiquei alguns parecidos proferidos por homens (já era de se esperar) e por mulheres (inacreditável, li mais de uma vez para verificar se meus olhos não estavam me traindo). Pensei comigo: “Meu Deus! Essas mulheres são machistas”. É um paradoxo, mas podem acreditar, elas existem e estão entre nós. Será que a cultura do machismo as persuadem de tal forma que as fazem acreditar nesses preconceitos?


Apesar de ter sofrido inúmeros abusos, o que é lamentável, a jovem rondoniense ainda teve a sorte de sua história não ter terminado com um feminicídio. Ela foi mais uma vítima do machismo.


O machismo não reforça a masculinidade de um homem. O machismo não é apenas um traço de caráter de uma pessoa com gênio forte. O machismo não se constitui somente em uma característica cultural de países com forte tradição patriarcal. O machismo revela cinismo, ignorância, intolerância, preconceito, covardia, possessão, violência, opressão, injustiça. O machismo é perigoso. O machismo mata.

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