Sérgio Piva

Quando chega o frio

Quando chega o frio

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 9 anos

É tempo de frio, inclusive no clima. Nos últimos dias, a temperatura tem caído, ao contrário de Brasília, onde aumenta a cada dia, apesar de ter muita gente no Congresso, e até fora dele, com muito frio na barriga. Em nossa cidade, antes do aquecimento global ou de qualquer outro fator que influencie o clima, o aviso de que o frio estava chegando era o acontecimento da Exposição Agropecuária, Comercial e Industrial. 


Chegavam o mês de maio e, fatalmente, a Expô, era sabido que o frio vinha junto. A festa costumava anunciar como seria nosso inverno. Particularmente, gosto do frio, ele não desgasta o corpo como faz o calor, aumenta a disposição e o apetite. Não que eu precise de frio para comer bastante. 


Mas, pelo menos, tenho uma boa desculpa. Dizem que as pessoas ficam mais elegantes nessa época, se vestem melhor. Depende. Segundo um amigo meu, quem fica chique no inverno é rico, porque pobre fica parecendo palhaço, veste uma peça de roupa de cada cor, uma sobre a outra, igual casca de cebola, além de arredondado, fica todo colorido, combinando, ou descombinando, as mais variadas estampas e cores possíveis e impossíveis. 


Um verdadeiro exercício de clown. Apesar do estado palhacesco que

me inflige o frio, ainda assim, gosto dele. Talvez porque não seja tão intenso e prolongado onde moramos. Fico imaginando os países nos quais ele dura um longo tempo ou naqueles em que, ao contrário do nosso, o calor se manifesta durante poucos dias do ano. Deve ser terrível. Não é à toa que nos países ou regiões de frio intenso e contínuo é alto o índice de suicídio, lugares onde os dias são curtos e as noites longas, com uma tendência natural de isolamento das pessoas, que se abrigam dentro de suas casas em busca de calor, distanciando-se do contato com vizinhos, amigos e parentes. 


É certo que muitas pesquisas já desmistificaram a relação entre frio e suicídio apresentando inúmeros outros fatores que tentam explicar esse ato de tribulação atroz. Verdade ou não, o fato é que o frio quase sempre foi associado a aspectos negativos. Ouvimos incontáveis vezes expressões como “pessoa fria”, “frio e calculista”, “a sangue frio”, “frio na barriga”, e tantas outras ressaltando ou ligando a ideia do frio a algo que não seja bom. 


A analogia do clima com as sensações que ele nos causa completa sua metáfora com o ambiente que ele constrói, já que o frio, o inverno, além da temperatura baixa, está associado a pouca luz e ausência do sol. Como a relação entre homem e ambiente é intrínseca, ou influenciamos o ambiente ou ele nos influencia, conforme a força contida em cada um. Se o frio e a pouca luz exterior nos leva ao recolhimento, esses mesmos fatores gerados internamente também nos conduzem a espaços escondidos e fechados da nossa mente. Assim, o que precisamos para
sair desses lugares obscuros é de luz e calor. 


Se no inverno buscamos nos aquecer de diversas formas ou até buscamos outros lugares com clima quente e muito sol, da mesma forma, no inverno de nossas almas, precisamos buscar lugares iluminados e coisas e pessoas que sejam capazes de aquecer nossa vida, seja em um bate-papo, presencial de preferência, seja em encontros familiares e de amigos ou em qualquer situação positiva que possa trazer o verão, a sensação ou a esperança dele para nossa existência. 


Em tempos frios e de pouca luz é bom lembrar que “o inverno nunca falha em se tornar primavera” e que “depois de uma noite escura vem sempre um lindo dia de sol”. E, se pode haver um inverno triste mesmo na primavera, o oposto também é possível, é factível fazer brotar a primavera no inverno interior, mesmo que flor por flor, da mesma forma como se pode romper a escuridão ainda que com uma simples vela. 

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