
Foto: Carlos Ledeira
Entrevistador: - Quem incomoda mais, o pobre ou quem ajuda o pobre?
Aquele que faz o mais difícil: - Quem ajuda o pobre incomoda porque o pobre existe. O que incomoda é a pobreza, porque a pobreza é fabricada.
Entrevistador: - O que escandaliza mais, a miséria ou a indiferença?
Aquele que faz o mais difícil: - Elas são inseparáveis, pois a miséria é fruto da indiferença e da desigualdade; e a desigualdade e a indiferença são uma miséria do ser.
Entrevistador: - Caridade ou justiça social?
Aquele que faz o mais difícil: - As duas são necessárias, não existe justiça sem caridade, nem caridade sem busca da justiça.
Entrevistador: - Dar comida resolve o problema ou apenas mascara?
Aquele que faz o mais difícil: - Resolve a fome, e a fome, como já dizia o Betinho (sociólogo que criou a campanha “Natal sem Fome” em 1993, um marco do combate a insegurança alimentar no país), tem pressa, é preciso responder rápido. Não adianta dizer para quem está com fome – “Espere aí que a justiça vai chegar”! A justiça é a comida.
Entrevistador: - Quem ignora o pobre está pecando?
Aquele que faz o mais difícil: - O pecado da indiferença e da causa da pobreza é um pecado muito forte, é um pecado social, e também pessoal que deve ser superado.
Entrevistador: - O que é estado de graça?
Aquele que faz o mais difícil: - É receber o amor de Deus que é gratuito. Estar na graça de Deus é estar no amor de Deus, aceitar esse amor para manifestá-lo ao mundo.
Essa foi a entrevista que “aquele que faz o mais difícil” concedeu ao Instituto Mercedário, um perfil em uma rede social que defende ações de combate à fome e à pobreza.
E quem é “aquele que faz o mais difícil”? Simplesmente, o grande padre Júlio Lancellotti.
Ele faz o mais difícil, porque acolhe aquelas pessoas que são invisíveis aos olhos da sociedade. Ele faz o mais difícil porque acolhe aqueles que muitos desprezam, aqueles que cheiram mal, aqueles que se envolvem em violência, que são mortos pelo frio, que passam fome, utilizando trapos como vestes. Ele faz o mais difícil porque acolhe, sem julgar, sem pensar, a população em situação de rua.
Desde 1993, padre Júlio lidera a Pastoral do Povo de Rua em SP, coordenando projetos de assistência a essa parcela da população na capital paulista.
Padre Júlio concentra as suas atividades de ajuda à pessoa em situação de rua no Núcleo de Convivência São Martinho de Lima, no bairro do Belenzinho.
Ele distribui, diariamente, mais de 400 refeições, providencia banho, roupas limpas, absorventes íntimos para as mulheres com essa necessidade, cobertores, escuta atentamente as suas histórias e toma outras providências para amenizar a dor dessa parcela tão sofrida da sociedade.
Uma vez ele disse: “Consegue imaginar ficar uma semana sem tomar banho, vários dias sem trocar a roupa, sendo mulher, ficar sem absorvente íntimo no momento da necessidade, passar fome, frio, dormir em qualquer lugar”? Quem nunca passou por isso, nem imagina o que é sofrer essa carência extrema que compromete diretamente a dignidade humana, colocando a própria integridade e a vida da pessoa em risco.
Padre Júlio possui uma extensa lista de ajuda verdadeira àqueles que são marginalizados, desprezados e largados no limbo da sociedade. Vamos lá! Vou tentar resumir: em 1991, em pleno auge da pandemia da AIDS, criou as Casas Vida I e II para acolher crianças contaminadas com o vírus HIV (naquela época, pessoas HIV positivas eram altamente discriminadas); foi um dos fundadores da Pastoral da Criança na igreja católica e contribuiu ativamente com a formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente. No fim dos anos 1990, trabalhou como voluntário nas unidades da FEBEM e, com esse trabalho, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) e obteve o reconhecimento da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura).
Trabalhou sistematicamente contra a Arquitetura Hostil aos pobres nas cidades brasileiras e, com isso, conseguiu a aprovação de uma Lei no Congresso proibindo essa prática – a lei foi aprovada em 21 de dezembro de 2022 e ficou conhecida como “Lei Padre Júlio Lancellotti”.
Em 2021, recebeu o prêmio Zilda Arns pela luta dos direitos das pessoas idosas, em especial, aquelas que estão em situação de rua. Já imaginou, ser idoso e ainda ter que conviver com os problemas e os perigos que oferecem as ruas brasileiras. Padre Júlio também os acolhe.
Durante a pandemia de Covid-19, padre Júlio lutou com unhas e dentes para incluir as pessoas da Cracolândia nas medidas de proteção do governo na época. Não importa se a pessoa é um dependente químico, o padre ajuda. Basta ser humano em situação de rua, o padre Júlio Lancellotti o auxilia.
Ufa! Não consigo resumir nestas poucas linhas os feitos do Padre Júlio, menos ainda elencar os prêmios, que foram muitos, que ele recebeu de bom grado e de forma humilde, sem se enaltecer por isso.
Infelizmente, o padre Júlio Lancellotti já foi ameaçado diversas vezes de morte por conta de seu trabalho de ajuda à população em situação de rua. Inacreditável! Um absurdo alguém condenar o trabalho desse padre, pior ainda ameaçá-lo de morte. Que mundo é esse em que vivemos?!
Quanto a isso, o padre Júlio afirmou “que tais atos não o farão parar com seu trabalho e busco apoio nas autoridades para garantir a segurança dos atendidos e a minha”. Ele também já sofreu agressões físicas em intervenções anteriores.
Quando digo que ele faz o mais difícil é justamente por isso - acolher aqueles que são desprezados pela sociedade, acolher sem prévio julgamento, sem moralismo inoportuno, apenas com amor, tentando proporcionar o mínimo de dignidade a esses nossos irmãos tão sofridos.
Ele proporciona alento para quem só preciso de ajuda, para quem não precisa de julgamento, para quem não precisa de indiferença, para quem precisa de comida, de banho quente, de roupa limpa, de alguém que escute um pouquinho o seu sofrimento. Para quem precisa de um mínimo de dignidade.
Isso não seria professar os verdadeiros valores cristãos? Na minha humilde opinião, sim! E padre Júlio Lancellotti os leva as últimas consequências, com a coragem e a determinação que somente os grandes homens possuem, a despeito de todas as adversidades que ele já enfrentou e ainda enfrenta.
Como já disse um dia o próprio padre Júlio Lancellotti: “Eu não luto para vencer. Eu sei que vou perder. Eu luto para ser fiel até o fim”.
Fiel ao seu compromisso ético de “auxiliar a população em situação de rua, priorizando a dignidade humana acima de resultados ou vitórias convencionais”.
Padre Júlio Lancellotti pratica, diariamente, os verdadeiros valores cristãos em sua forma mais cristalina, não se limitando apenas ao campo teórico.
Vida longa a esse homem espetacular!
Vida longa a esse homem que faz o mais difícil!
Vida longa e todo o nosso respeito ao padre Júlio Lancellotti!
Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira (Prof. Cadu) é biólogo e cirurgião-dentista; mestre em Microbiologia e Doutor em Geologia Regional com ênfase em Paleontologia de Vertebrados; professor EBBT; coordenador de Extensão do Instituto Federal de São Paulo, Campus Votuporanga e Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis
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