Boxe não faz parte de meus interesses. Todavia, quando menino, não havia como não prestar atenção em um negro norte-americano cujos punhos e jogo de pernas nos ringues imortalizaram-no. Cassius Marcellus Clay iniciou na chamada “nobre arte” (?) muito jovem. Notabilizou-se pela facilidade que vencia seus oponentes com nocautes. Encontrou-se com o líder negro Malcolm X, em 1962, razão pela qual, alguns anos depois, converter-se-ia ao Islamismo e mudaria se nome para Muhammad Aliu-Haj.
Perdeu o título de campeão de pesos pesados em virtude de se negar a lutar na Guerra do Vietnã, sob a correta alegação de que se tratava de uma estupidez - a História provou -, e um instrumento racista, na medida em que a maioria dos soldados que eram jogados na linha de frente era negra. Mais uma vez a História provou correta sua assertiva. Continuou a lutar nos dois sentidos. Principalmente contra o racismo. Em 1967, esteve em Louisville com Martin Luther King, de quem era amigo. Depois de ser derrotado por Joe Frazier, em 1971.
Três anos depois, enfrentou George Foreman no Zaire. A escolha do território africano foi do próprio Ali. Antes da luta, ainda houve uma apresentação de B. B. King. Tudo mostrado num belíssimo documentário. Seu último combate foi nas Bahamas, contra Trevor Berbick, em 1981. O resultado não importa. Costumam se referir a Ali como o “Pelé do Boxe”. Discordo. Trata-se de uma ofensa. Diferente do “alma branca”, nunca se encantou com a elite econômica, nunca lambeu botas de políticos safados, nunca bajulou ditadores e ditaduras, muito menos se eximiu de lutar contra o racismo ou qualquer opressão. Sabia de suas dimensão e importância. Seu agir foi sempre nessa direção. Manteve-se íntegro.
Como uma espécie de reconhecimento, acometido pelo Mal de Parkinson, acendeu a pira olímpica dos jogos de Atlanta. Trêmulo, porém, altivo e mitológico, paralisou o estádio e os espectadores das televisões mundo afora. Infelizmente nos deixou dia três desse mês. Todavia, morreu como sempre viveu: de pé. Muito além de murros. Seus verdadeiros golpes foram contra a hipocrisia e a burrice humanas.