
Teste rápido para detectar HIV, sífilis e hepatite C
O Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu na terça-feira (15) uma recomendação para que todos os médicos incluam testagens para HIV, sífilis e hepatites B e C nos pedidos de exames de sangue convencionais. A ideia, segundo o órgão, é derrubar o tabu sobre o tema e antecipar o diagnóstico dessas infecções.
“Em médio prazo, poderemos ter um índice muito menor daquelas pessoas que não conhecem os diagnósticos dessas moléstias, que eles podem estar portando. Às vezes, as inibições do médico e do paciente, em consultas sobre outras questões, fazem com que isso não seja abordado”, diz o presidente do CFM, Carlos Vital.
Os exames não são compulsórios e o paciente deverá ter a liberdade de recusar o procedimento. A recomendação também não obriga os médicos a tocarem no assunto, mas o conselho espera ampla adesão da categoria.
“A autonomia será respeitada. O pedido só será feito, inclusive, após um esclarecimento e um consentimento do paciente, mas o médico deve, na sua entrevista, fazer referência à importância dessa exame para a prevenção e o cuidado do paciente”, afirma Vital.
A frequência desse tipo de exame também deverá ser avaliada pelo profissional de saúde, com base na rotina de cada paciente. Para as hepatites, os médicos também serão orientados a verificar se a vacinação foi realizada e a recomendar a aplicação das doses, se necessário.
Os testes de sorologia para HIV, sífilis e hepatites B e C são oferecidos na rede pública e, por isso, não devem representar custo adicional ao cidadão. “O Brasil é um dos poucos pacientes que oferece de maneira universal no Sistema Único de Saúde. É uma conquista do SUS que deve ser ampliada, mas para isso, precisa da adesão do médico e do cidadão”, diz o presidente.
CASOS “OCULTOS”
A recomendação pode ajudar o Brasil a tomar conhecimento real do número de pessoas infectadas por essas doenças transmitidas, na maior parte dos casos, pelo contato sexual sem proteção. O Ministério da Saúde estima que 150 mil brasileiros vivam com HIV sem saber. Em 25% dos casos diagnosticados, a doença só é identificada em “estágio avançado de imunossupressão”, quando o organismo já está debilitado.
Segundo o CFM, o protocolo de sugerir os exames já é adotado por médicos dos Estados Unidos e da União Europeia. A indicação poderá ser feita por médicos de qualquer especialidade, mesmo em consultas que não estejam relacionadas aos órgãos genitais ou à prática sexual.
“Os exames são importantes para os positivos (que apresentarem infecção) e para os negativos. Os positivos, para fazer o tratamento precoce, e os negativos, para fazer a prevenção. Não temos que prevenir apenas durante o Carnaval, mas rotineiramente”, diz o relator da recomendação e coordenador da Comissão de Ginecologia e Obstetrícia do CFM, José Hiran Gallo.
RISCO CONTÍNUO
Médico infectologista e membro da Câmara Técnica de Bioética do CFM, Dirceu Grecco afirma que os conceito de “grupo de risco” e “comportamento de risco” – anteriormente aplicados a garotas de programa, homossexuais e usuários de drogas, por exemplo – foram abolidos para todas as doenças sexualmente transmissíveis, incluindo as citadas na recomendação.
“O que se fala agora é em situação de risco, para sexo não protegido com pessoa que não sabe seu diagnóstico sorológico. A discussão sobre quando fazer [o exame], como fazer e para quem oferecer depende da relação médico-paciente. Para proteger a vida saudável, é preciso saber”, diz o médico.
O protocolo atual de exames já prevê que, quando o teste dá positivo para essas doenças, o paciente deve ser encaminhado para orientação e tratamento em uma unidade de saúde. A notificação dos casos ao governo é obrigatória, mas Grecco afirma que o país ainda luta para diminuir o “subdiagnóstico” – pessoas infectadas que não sabem e, por isso, não entram nas estatísticas.
Se a recomendação do CFM for seguida à risca, a discussão sobre a vida sexual deverá sair dos consultórios de ginecologia e urologia e atingir outras especialidades. “Não é só uma discussão sobre DST, mas sobre sexualidade. A nossa discussão pode ajudar a trazer de volta, para dentro da escola, aquilo que foi tirado. Discutir gênero, violência, direitos, e aí talvez nem precise mais de uma resolução dessas”, afirma.