

Durante entrevista, artista apresenta parte dos seus trabalhos
Por Josanie Branco
A Arte é uma forma de expressar o que cada um sente no íntimo. Ela traduz as experiências de vida. A importância e a riqueza da arte vêm exatamente da sua capacidade de reunir todas as dimensões humanas - a emotiva, a racional, a mística, a corporal. O tipo de experiência que a arte é capaz de proporcionar é único, e não pode ser substituído por nenhuma outra área do conhecimento humano. Isso significa que sem a arte nosso entendimento do mundo e também de nós mesmos fica empobrecido. Conhecer e entender a arte é fundamental na construção da nossa identidade. Com uma vida toda voltada à arte, hoje, nos seus 35 anos de idade, o autodidata Beethoven Rybezynski, faz um retrospecto de sua vida e em entrevista a este “O Extra. net” conta como foi aprimorando seus conhecimentos para conciliar a música e os desenhos: duas grandes paixões.

Desenho feito por Beethoven aos nove anos de idade
EXTRA: Você hoje é um conceituado artista. Como e quando foi a descoberta dos seus dons?
BEETHOVEN: Desde a minha infância sempre gostei da arte e tinha um olhar atento a essa área. Aos 7 anos meu interesse por desenhos foram se intensificando e comecei a delinear meus primeiros traços, tudo o que eu via pela frente começava a desenhar e sempre tentava aproximar ao máximo da realidade. Quando eu tinha 9 anos, me lembro que fiz o desenho do retrato de uma amiga e o dei para que ela guardasse de recordação. Dia desses, pedi para que ela deixasse eu ver aquela aventura de criança, afinal eu não lembrava bem como tinha ficado, pois já se passaram muitos anos, mas para minha surpresa fiquei muito feliz com o que vi, realmente foi um bom trabalho para um menino daquela idade. Meu interesse pela música também começou por volta dos sete anos, quando insisti para minha mãe me colocar na aula de piano, desde então não parei mais de aprender música, foi algo contagiante. Aos 12 anos entrei na banda marcial “Zillo Lorenzetti”, tocava trombone e logo virei assistente do mastro, fui membro da equipe até por volta dos meus 16 anos, chegamos a ser bi campeã Paulista. Eu achava que seria um maestro, então decidi estudar para isso.
EXTRA: Durante a sua infância, como era o reconhecimento do seu talento artístico?
BEETHOVEN: A primeira vez que tive esse reconhecimento eu já estava no início da minha adolescência, me lembro como se fosse hoje, eu estava na plateia assistindo o ensaio de uma orquestra na USP, em Bauru, e enquanto eu ouvia, desenhava o Jorge Bem Jorge, naquele momento um professor de Artes Plásticas se aproximou de mim, pegou meu desenho e ficou surpreso com o que viu, disse que eu tinha um grande potencial e me incentivou a me especializar,estudar e me tornar profissional. Eu fiquei bastante empolgado com o que ele disse, afinal tinha sido a primeira pessoa a reconhecer publicamente meu talento, mas também fiquei muito em dúvida, pois nessa mesma época eu estava fascinado pela música.
EXTRA: Com duas paixões artísticas, como foi sua trajetória para escolher uma delas?
BEETHOVEN: Na verdade eu nunca soube como fazer essa escolha, pois o desenho sempre foi muito importante, sentia-me realizado em cada nova produção, assim como a música que me cativava a cada dia. Na adolescência fui me envolvendo mais na carreira musical. Quando sai da “Zillo Lorenzetti”já estava envolvido com uma banda de rock, tocava na noite e fazíamos muitas apresentações. Naquela época, minha família se mudou para Fernandópolis e eu fiquei morando na região de Bauru, onde trabalhava com a música.
EXTRA: Como foi sua vinda para Fernandópolis?
BEETHOVEN: Confesso que não estava em meus planos vir para Fernandópolis, mas em uma visita que fiz para minha família conheci aqui o pessoal da “Banda do Beco”. Eles tinham proposta de formar uma banda autoral, a ‘Sr. Pestana’, e gravar um disco. Foi tudo muito rápido, não pensei duas vezes, pois esse era um projeto meu, então deixei tudo lá e vim morar aqui em 1999. Em pouco tempo a banda se formou e fomos ganhando notoriedade e reconhecimento da população local e regional, foram três anos de trabalho até que cada um dos integrantes foi tomando rumos diferentes e a banda se desfez. Naquele instante fiquei sem saber o que fazer, mas sem que eu esperasse fui convidado por dois grandes artistas da cidade, o Ricardo Moisés e a Ivani Saunders para montarmos uma loja de artes, era meu recomeço com os desenhos, que até então, estavam parados. Entretanto, paralelo aos desenhos, comecei a fazer shows por todo país como tecladista do Ricardo. Ele estava no auge como calouro do Raul Gil, foi naquela época que pude conhecer diversas regiões do Brasil. Tempos depois, eu e alguns músicos amigos formamos a “Banda Homoplata”, onde também fiquei por cerca de três anos, até que uma forte dor, que me impedia de tocar, me afastou dos palcos, achei que fosse LER (Lesão por Esforços Repetitivos), então tive que parar de fazer aquilo que eu tanto gostava, já não dava mais para tocar e nem fazer desenhos.


Técnicas de realismo com grafite e carvão. Fotos originais e desenhos
EXTRA: Como foi para você não pode mais exercer atividades artísticas? BEETHOVEN: Foi um baque, fiquei completamente perdido, não sabia o que fazer, afinal, desenhar e tocar eram paixões de infância, era isso que queria para minha vida toda, não me imaginava fazendo outra coisa que não fosse na carreira artística. Aos poucos fui fazendo novos exames e descobri que eu estava com fribromialgia e que a doença poderia ser controlada com uso de medicamentos. Foi quando eu, já me sentindo melhor, comecei a grafitar, eu já tinha praticado essa técnica na adolescência e voltei a fazê-la com uso de aerógrafo, que não doia tanto as mãos. Fiz muitos trabalhos por toda cidade e região. Aos poucos também comecei a fazer free lance na música, fui percebendo que eu dava conta e poderia voltar. Em pouco tempo já estava com novos projetos e formamos a “Banda BZynski”, tempos depois nos juntamos a outros músicos, formando a “Velhos de War”, fizemos vários shows, momentos inesquecíveis, mas que logo terminaram e nós efetivamos novamente a BZynski, ainda hoje na ativa.
EXTRA: Você hoje se aperfeiçoa nos desenhos. Como foi conciliar com a música? BEETHOVEN: Quando fiquei sem poder desenhar e nem tocar, tive a certeza do quanto as duas profissões eram importantes para mim, então, quando voltei a poder trabalhar nessas áreas, decidi que iria me aperfeiçoar nos desenhos, trabalhando o realismo com técnicas de grafite e carvão. Agora resolvi estudar mesmo, quero aprofundar meus dons e conhecimentos, compartilhando também informações com outros desenhistas. Almejo ser um grande e respeitado desenhista. Foi há cerca de 3 anos, quando eu tinha 33 anos de idade, é que finalmente consegui conciliar o desenho e a música. Montei um estúdio de gravação num contêiner, há pouco mais de um ano, ainda estou acabando de estruturar o local, mas já realizamos diversos trabalhos ali, Enfim agora posso dizer que atuo como músico, desenhista e tenho meu próprio estúdio de gravação.
EXTRA: Além da arte, você também atua como voluntário em projetos sociais. Como e quando começou esse trabalho.
BEETHOVEN: Sou um dos fundadores da “Pelos e Patas”. Tenho aversão à injustiça que é feita com animais, não suporto ver maus tratos, isso me incomoda muito, então decidi entrar para esse grupo de voluntários que se preocupam e cobram os direitos dos bichinhos. Há algum tempo fiz o desenho de um gato e um cachorro para que o projeto fizesse uma rifa e angariasse recursos, pois, infelizmente, é muito difícil manter um trabalho como esse. Em breve pretendo fazer um novo trabalho para que seja revertido em prol à “Pelos e Patas”. Também já fui professor voluntário de artes no Programa Escola da Família, era uma forma de incentivar novos talentos, na verdade uma maneira forma de suprir aquilo que eu não tive na infância, a falta de reconhecimento. Todos nós temos talentos a serem desvendados, muitas vezes precisamos apenas de pessoas que reconheçam isso e nos incentivem a seguir em busca dos nossos sonhos.

Como músico, Beethoven se apresenta por toda região
EXTRA: Financeiramente, é possível viver bem na arte?
BEETHOVEN: Sim, desde que se trabalhe, e muito. Um músico tem que se dedicar, assim como o desenhista. Tudo o que for bem explorado, bem feito e bem direcionado, da para ter uma renda satisfatória. É importante também contarmos com o apoio e incentivo das pessoas que estão do nosso lado, isso é fundamental para nosso crescimento. Eu sou grato a todas as pessoas que acreditaram em mim. Agradeço de maneira especial a minha esposa Lais, ela é minha grande incentivadora.
EXTRA: Você se imagina fora da cultura e da arte?
BEETHOVEN: A maioria das pessoas acredita que o dom é de Deus e se isso nasceu impregnado em mim eu estaria mudando, indo de forma contrária, a ordem natural das coisas, ou seja, mentindo sobre minha própria essência. Será que seria justo eu buscar outra coisa e deixar essa dádiva se perder no tempo? Não, creio que não.