André Marcelo

Crise Crônica: uma ilusão da realidade

Crise Crônica: uma ilusão da realidade

Por André Marcelo Lima Pereira

Por André Marcelo Lima Pereira

Publicada há 9 anos
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André Marcelo Lima Pereira - Psicólogo

Crise, segundo Ferreira1, é, ou deveria ser, uma “manifestação repentina de ruptura do equilíbrio, [uma] fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos acontecimentos, das ideias”, ou, ainda, um “período de instabilidade financeira, política ou social”. Pelo menos, crise deveria ser um estado passageiro, mas alcança contornos peculiares quando se transforma em crise crônica – uma doença.

Sabe-se que uma crise é desenhada como uma ruptura do equilíbrio, um estado de dúvida e incerteza, de tensão e conflito; quando sem perspectiva de prosperidade, pode conduzir o indivíduo à depressão. Nesses estados, uma crise pode configurar-se, em psicanálise, como parte integrante de uma nova “identidade” e gerar benefícios, ou seja, o indivíduo, em estado de crise crônica, aufere, neuroticamente, vantagens extraídas da própria doença. Freud2 entende por benefício qualquer satisfação direta ou indireta que um indivíduo extrai de sua doença crônica: em função das forças pulsionais e impedimentos da realidade, a pessoa constitui sua neurose, sua fuga: ela parece não querer mais “sarar”, posto que a doença mesma lhe propicia vantagens e, diante disso, resiste a mudanças que impeçam auferir esses benefícios: é como se ela se alimentasse de sua própria doença/crise. Freud pontua que “esses distúrbios mentais apenas são acessíveis à influência terapêutica quando podem ser reconhecidos como efeitos secundários daquilo que, de outro modo, constitui uma doença orgânica”.

Pode ser que a neurose seja uma solução possível, cujos benefícios se traduzem em forma de recompensas para o indivíduo. A neurose se instala quando existe carência de perspectiva de mudança ou solução; depois de instalada a neurose, porém, o indivíduo pode não ver mais alternativa, isto é, resta-lhe usufruir das “estranhas vantagens” permitidas pela crise/neurose, ou, se ainda for possível, transmudar uma crise/doença crônica em transformadora.

Esse parece ser o caso do Brasil: estados de tensão, conflito, incerteza e penúria não resolvidos. É como se fosse um estado crônico, de contínua desesperança – um país paralisado cuja estagnação se tem tornado um panorama familiar e, às vezes, conveniente para alguns. Uma vez instalada, a “crise crônica” parece impossibilitar novas construções, como se os indivíduos estivessem mergulhados em um desamparo geral, sem sonhos ou perspectivas, a não ser negativas – um horror econômico, sem soluções efetivas, e promessas que nunca chegam a se efetivar, fundadas em teorizações paranoicas não convincentes. Daí o discurso da catástrofe, do negativismo coletivo contagiante, o que equivale a dizer a mesma desgraça para todos, sem condição para uma vida humana normal.

Em raciocínio análogo, o Brasil – ou pelo menos parte dele – parece alimentar-se da própria crise e nela encontrar mais “satisfação” do que na superação dela. O país não se mostra guiar-se na interpretação das causas da crise em busca de uma terapêutica que lhe seja eficaz; antes, confunde os benefícios de uma crise com sua causa, enquanto dirigentes e parte da classe política “extraem vantagens” (“efeitos secundários”) dela. Isso lhes basta para sua manutenção no poder: não conseguir solucionar crises é vantajoso, e a cronicidade da crise resulta no apego aos benefícios garantidos por ela – o que faz o país parecer mergulhar em uma “doença orgânica”.

Sabe-se que crises provocam mudanças; às vezes, tais mudanças podem constituir-se no único meio para se movimentarem processos de transformação. Quando uma crise se torna crônica, estagnada, é necessário caminhar-se em direção a transformações, cuja travessia se fundamenta em rupturas de vínculos habituais ligados à crise crônica. É conveniente, entretanto, lembrar que a dor e o sofrimento presentes em toda crise são sempre maiores do que os benefícios que ela pode gerar.

Não se trata de crença/descrença de verdades teóricas ou compreensões lógicas de um processo, ou de inspirar mudanças significativas. São necessárias transformações estruturais e culturais, mesmo que em médio e longo prazo, ou seja, mudanças que não observem apenas os sintomas superficiais e atuais da crise, ou as vantagens para alguns, mas mudanças que contemplem a compreensão e procedimentos (ações) conscientes sobre a realidade. Em psicanálise, de pouco adianta a compreensão consciente se esta não se fizer acompanhar de mudanças reais que absorvam também processos “inconscientes e forças pulsionais”.

A psicanálise não explica nem tem a solução para a crise instaurada no país. Mas reflete, analogamente, um quadro que tende a servir a governantes e interesses políticos de alguns, colocando o país como se fosse um indivíduo a seu dispor, com doença crônica a ser por eles explorada. Todavia, transformações estruturais precisariam ocorrer no próprio modo como se organizam as relações entre os indivíduos na sociedade brasileira. Seria muita pretensão elencar quais seriam tais transformações; mas não é exagero apontar que o quadro crônico do Brasil lembra uma neurose instalada circunscrita no campo do conhecimento psicanalítico.



1 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Míni Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. 8.ed. Curitiba : Positivo, 2010. 960p. (Verbete: crise, p. 209)

2 FREUD, Sigmund. Conferências introdutórias sobre psicanálise (Parte III) (1916-1917). Trad. J Salomão. Rio de Janeiro : Imago, 1996. p.13. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud; v. XVI).

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