Da Redação
Para liberar leitos para o tratamento de pacientes com coronavírus, os hospitais da rede pública de Rio Preto tiveram que cancelar consultas, exames, cirurgias eletivos. Só foram mantidos aqueles cujo adiamento colocasse em risco a vida do paciente, como os procedimentos oncológicos e cardiológicos. As instituições do SUS, no entanto, também atendem convênio, e esse tipo de assistência é importante para que os hospitais tenham algum fôlego financeiro, já que os repasses do governo federal, que mantêm o SUS, são deficitários e não cobrem os custos.
Com a queda drástica no número de atendimentos, eles contam com doações e emendas parlamentares para manter a folha de pagamento. O governo federal repassa R$ 1,6 mil para cada leito de UTI de coronavírus na Santa Casa, por exemplo, mas a despesa diária chega a R$ 3,5 mil.
No Hospital de Base, entre perda de receita e aumento das despesas o déficit será de R$ 8 milhões a R$ 9 milhões por mês. De acordo com o diretor-executivo da Funfarme, Jorge Fares, não houve demissões de colaboradores - pelo contrário, apenas neste mês serão contratados cerca de cem funcionários para atender os plantões de coronavírus e substituir os que foram afastados por idade, gravidez ou síndrome gripal.
Em nota, o hospital informou que está fazendo as cirurgias oncológicas e as eletivas que, se não forem feitas, podem se tornar de emergência em um futuro próximo, como as de vesícula que podem se agravar, por exemplo. Entre urgência, emergência e eletiva são em média 33 procedimentos por dia.
Apenas no Ambulatório, por exemplo, o número de consultas feitas por mês caiu de pelo menos 30 mil para menos de 7 mil. Tanto porque o próprio hospital está atendendo às determinações das autoridades de saúde e diminuindo o fluxo de pessoas circulando, como porque os próprios pacientes estão com medo de sair de casa e não estão comparecendo aos agendamentos.
A maior queda está nos convênios médicos. "O nosso SUS é quase 80% dos atendimentos, mas o convênio representa 40% da receita", pontua Fares. Enquanto o Estado fez o compromisso de pagar aos hospitais uma média do faturamento dos meses anteriores (calculado com base nos procedimentos feitos), as operadoras de plano de saúde somente pagam com base nas consultas, exames e cirurgias realizados. "Entendo o lado deles, com certeza em um mês vão sentir o impacto porque as empresas deixarão de pagar, vai ter problema para eles", diz o diretor da Funfarme. Diante desse cenário, o complexo depende de doações de prefeituras, empresas e pessoas físicas e de emendas parlamentares para fechar as contas.
Na instituição inteira, entre Hospital de Base e Hospital da Criança e Maternidade, estão previstos 400 leitos para Covid-19. Poucas cidades da região possuem leitos de alta complexidade e respiradores. A maioria vai encaminhar os pacientes em estado crítico para Rio Preto. "Se estourar mesmo, vai sobrar para nós regionalmente. Na região não vai ter estrutura, não vai ter UTI, a gente tem que estar preparado porque senão coloca em risco todo o sistema." Na sexta-feira, 15, havia 12 pacientes com suspeita de Covid-19 no HB e 21 com a doença confirmada, 11 na enfermaria e dez na UTI.
Fares ressalta que as situações de emergência continuam ocorrendo. "O cara infartado continua chegando, o diabético descompensa, tem derrame, acidente vascular cerebral, acidente diminui, mas continua tendo. Estamos mantendo praticamente o que reservamos cheio".
Santa Casa
Na Santa Casa, à exceção dos leitos destinados à síndrome respiratória aguda grave, a ocupação estava em quase 100%. O hospital teve que reduzir a quantidade de leitos de 280 para 253 desde o início da pandemia, por causa do espaço físico, já que na ala destinada ao tratamento de coronavírus é preciso haver no mínimo dois metros entre as camas. São 36 leitos de UTI e 30 de enfermaria, com possibilidade de ampliação, se necessário. "Se a coisa pegar podemos chegar a 56 leitos, mas não é expansão. Vai diminuir leitos para outras patologias, é substituição", diz Valdir Furlan, administrador. Segundo ele, não dá para prever quando a situação voltará à normalidade, já que a curva de casos de Covid-19 não para de crescer.
Como há uma portaria do Ministério da Saúde para pagar normalmente aos hospitais do SUS o que é contratualizado, independentemente da realização de procedimentos, não há impacto nos repasses do governo federal nesse e nos próximos meses, conforme publicação do governo federal. Na instituição, a maior perda também é dos convênios. "Não fechamos, mas eu acredito que é mais de 50% dos convênios, que é o que toca o hospital. Representa aproximadamente R$ 2 milhões por mês."
Segundo Furlan, não há como "recuperar" esse valor, mesmo com a diminuição dos procedimentos eletivos. Assim, o hospital também conta com doações de dinheiro, alimentos e equipamentos de segurança para os funcionários. O Ministério da Saúde está pagando R$ 1,6 mil por dia pelos leitos de síndrome respiratória aguda grave, mas as despesas não ficam em menos de R$ 3 mil e podem chegar a R$ 3,5 mil.
Enquanto as receitas caem, as despesas sobem. As equipes tornaram-se mais caras, já que é preciso manter colaboradores específicos para atendimento às síndromes respiratórias, sem contato com os demais pacientes para evitar contaminação. O consumo de equipamento de proteção individual saltou. Todos os aventais da cirurgia devem agora ser impermeáveis. "Eu gastava de 150 a 180 máscaras por dia, estou gastando 1,5 mil. Cada uma custava R$ 0,12. Estou conseguindo comprar por R$ 0,90 a R$ 1,30", diz Furlan.
O Hospital João Paulo II atende a emergências e também pacientes encaminhados de cidades da região. Público e de administração estadual, firmou parceria com a Prefeitura de Rio Preto para atender mais pacientes durante a pandemia, dando suporte ao Hospital de Base e à Santa Casa. É o único do SUS que não recebe pacientes de coronavírus.
Fonte: Diário da Região