André Marcelo

Negação à Cleptocracia

Negação à Cleptocracia

Por André Marcelo Lima Pereira

Por André Marcelo Lima Pereira

Publicada há 9 anos

A imprensa (falada e escrita), ao revelar a roubalheira que se abateu no país, tem postado algumas falas curiosas. Da presidente Dilma: – “O Brasil não vive crise de corrupção nem tem intocáveis” (para um jornal chileno). – “Nós não somos ladrões; alguns ‘tombaram’, mas não vão levar ‘desaforo para casa’” (Gilberto Carvalho, ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência). – “Os mesmos que criticam atos da classe política são aqueles que, quando um guarda de trânsito para e quer multar, pensam numa ‘propininha’; o empresário que, por vezes, protesta, e com razão, dos desmandos dos nossos governantes é aquele que, quando chega um fiscal de rendas, diz ‘bem, como podemos acertar isto?’” (Cardozo, ministro da Justiça) – e outros mais de todos os partidos. Eles NEGAM ser corruptos quando veem seus nomes revelados como corruptos. Como entender o fenômeno humano da negação? A negação se constitui um mecanismo de defesa individual ou coletivo. 


Freud1 concebe negação como recusa consciente de experiências ou fatos perturbadores. Ela retira a percepção de aspectos dolorosos, mas diminui a capacidade de lidar, conscientemente, com desafios exteriores e a capacidade de valer-se de estratégias de sobrevivência adequadas. Seligmann-Silva2 e Dejours3 consideram a negação uma estratégia para enfrentar riscos e ameaças em situações de trabalho: negar os riscos e o próprio medo, por exemplo, é mostrar-se valoroso, viril e pronto para continuar a tarefa cotidiana. Para a negação de situações reais difíceis e de enfrentamento, a formação de fantasias (“É golpe! É mentira! É provocação!” “É perseguição!” etc.) como refúgio a situações desagradáveis pode ser uma saída: a fantasia satisfaz uma necessidade ou desejo, que não pode ser satisfeito na vida real. 


Laplanche e Pontalis4 (p.169) a descrevem como um “roteiro imaginário em que o sujeito está presente e que representa a realização de um desejo e, em última análise, de um desejo inconsciente”. A negação, por exemplo, satisfaz o desejo de descanso motivado pelo estresse e acalma para não enfrentar a realidade. Negar (mecanismo psicológico da negação) um problema social grave ou reduzir-lhe a significância é uma das reações humanas mais comuns, especialmente quando a pessoa ocupa algum cargo público (que envolve poder e dominação). Negar um fenômeno real ou diminuir sua relevância serve de muleta (psicológica) para que a pessoa não tenha de tomar providências concretas desagradáveis ou fazer revisões dolorosas de sua identidade ameaçada (de pessoa impoluta, honesta, escorreita). 


A negação pode vir acompanhada de uma projeção (“os outros são corruptos, eu não”) no intuito de silenciar a voz dolorosa da consciência; possibilita ao indivíduo eximir-se de uma “revisão moral pessoal”: nega-se o problema para não se ter de enfrentá-lo. A Psicologia pondera que a negação de um problema traz alívio, ainda que momentâneo, e livra o peso da reprovação social, evitando afetar a autoimagem de pessoa íntegra, honrada, honesta. Isso, porém, não passa de uma mentira – para os outros e para nós mesmos: negar representa mentir para se proteger; negar é não reconhecer a existência de um problema; mas negar é, também, não solucionar. 


Gilmar Mendes, ministro do STF, censurou “a instalação (no Executivo) de um sistema de corrupção há 14 ou 15 anos”, coincidindo com a eleição de Lula como presidente. O magistrado admitiu que o sistema político brasileiro tem “vícios” desde antes da ascensão do PT, mas “um sistema instalado (de corrupção), como por exemplo com a Petrobras, não havia”. 


No Brasil, negar a corrupção é negar o óbvio, é negar a cleptocracia, a plutocracia, o parasitismo. Isso faz contemplar a genialidade do compositor Bezerra da Silva: “Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão”. Cleptocracia é um termo de origem grega (klépto = roubar; cracia = poder) e significa “estado governado por ladrões”, cujo objetivo é “roubar” o país e seu bem comum; ocorre quando uma nação passa a ser governada por pessoas que tomaram o poder político nos diversos níveis e querem transformá-lo em valor econômico, utilizando diversos meandros.


O Brasil pode não ser a maior cleptocracia do mundo, mas, com certeza, representa um dos mais cobiçados paraísos dela por circunstâncias favoráveis: aqui sempre houve corrupção, patrimonialismo, ladroagens, extorsões, roubos etc. e, principalmente, absoluta impunidade, que enfraquece as instituições. 


Solução à vista? 


Sem querer citar regras, começa-se por reconhecer-se o problema; não se negue a corrupção (a sujeira não pode ser atirada para baixo do tapete); acabe-se com o patrimonialismo (confusão entre público e privado, usufruição da coisa pública como se fosse coisa privada) no Estado; avalie-se sua dimensão; e parta-se para a cura (cujo processo pode ser dolorido para os que participam da corrupção institucionalizada)


1 FREUD, A. O ego e os mecanismos de defesa. Trad. Settineri, F. E. Porto Alegre: Artmed,  2006. 124 p.


2 DEJOURS, J. C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Trad.  A. I. Paraguay e  L. L. Ferreira LL. 5. ed. [ampl.]. São Paulo: Cortez/Oboré, 1992. 168 p.


3 SELIGMANN-SILVA,  E. Trabalho e desgaste mental – o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez, 2011a. 622 p.


4 LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário de psicanálise. Trad. P. Tamen. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004







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