Por João Leonel
Longe de poder ser considerada a tão cobrada “abertura da caixa-preta” da Santa Casa, a coletiva à Imprensa realizada na manhã desta sexta-feira (20), foi, sem dúvida, o primeiro passo para se implantar uma administração transparente no maior hospital de Fernandópolis.
Muitas dúvidas restaram, devido ao “pouco tempo hábil” para que a nova diretoria, constituída nas últimas semanas, pudesse apresentar todas as respostas necessárias, segundo o novo provedor da Irmandade, Edilberto Sartin.
E estavam ao seu lado neste momento conturbado - pós-renúncia de Sandra Godoy, de grave crise financeira e até mesmo com atraso no 13º de 2015 dos funcionários -, Paula Zonovelli, gerente de enfermagem do Pronto-Socorro, João Tarlau, conselheiro fiscal, Amilton Carvalho, conselheiro fiscal, José Salvioni, o “Zé da Gráfica”, conselheiro fiscal, Valdenir Ferreira, 3º diretor-tesoureiro, Celso Spósito, administrador do Lucy Montoro, e Helio Maldonado Filho, conselheiro administrativo e responsável pela apresentação da “situação financeira” da Santa Casa à Imprensa.
NÚMERO DE FUNCIONÁRIOS E DÍVIDA COM PESSOAL
Através do levantamento apresentado por Helio Maldonado Filho, a Santa Casa conta, atualmente, com 556 funcionários. Ativos, são 427 colaboradores. O salário médio da folha de pagamento é de R$ 1.700,00. A despesa mensal com pessoal e encargos trabalhistas é de R$1,2 milhão. A dívida acumulada em salários atrasados dos funcionários (folha salarial de janeiro de 2017 + 13º de 2015 + 40% do 13º de 2016) chega a R$ 2,3 milhões. Segundo informou Maldonado, 60% do 13º salário do ano passado foi pago, o que gerou o atraso no pagamento deste mês.
NÚMERO DE MÉDICOS E DÍVIDA COM O CORPO CLÍNICO
Uma das perguntas que ficou sem resposta é em relação ao número de médicos que prestam serviço na Santa Casa. A despesa mensal com salários dos médicos é de R$ 832 mil (média dos últimos 4 trimestres). A dívida com o corpo clínico da Irmandade é de R$ 4,8 milhões(somando-se plantões/ produção /hemodiálise).
“Nenhum médico é funcionário da Santa Casa”, disse Maldonado. Os médicos que atuam no hospital, “como na maioria dos hospitais”, salientou, juntam-se em 4 ou 5 profissionais e constituem uma empresa, esta que recebe de acordo com o contrato assinado.
ATRASOS PONTUAIS
Somados os valores de repasses atrasados de 12 Prefeituras dos municípios da região, exceto Fernandópolis,com moradores atendidos constantemente no hospital, chega-se ao total de R$ 82 mil. A extinta Unicastelo, hoje UniBrasil, através do programa ‘Hospital de Ensino’, realiza um repasse mensal à Irmandade de R$ 40 mil.
Além do valor ser considerado abaixo do“possível” - o ideal, apontado durante a coletiva, seria de aproximadamente 30% do valor da mensalidade para cada um dos 60 ‘universitários-residentes’, o que daria cerca de R$ 180 mil/mês -, a instituição de ensino superior não realizou os dois últimos pagamentos, referentes aos meses de dezembro de 2016 e janeiro de 2017, portanto, R$ 80 mil estão “atrasados”.
CONTAS A RECEBER
No entanto, o “grosso” das contas a receber, no total de R$ 3,6 milhões, é relativo aos repasses do SUS: R$ 1,5 milhão. Da Unimed, R$ 160 mil. De convênios particulares, R$ 348 mil. Há também 3 parcelas do ano passado e uma parcela deste ano em atraso do programa Santa Casa Sustentável: totalizando R$ 914 mil. Além disso, outro programa, o “Pró Santa Casa”, está com duas parcelas atrasadas, somando R$ 126 mil.
CONTAS A PAGAR
Além dos atrasos com a folha de pagamento dos funcionários e corpo clínico, há dívidas com fornecedores: R$ 1,5 milhão. Demandas trabalhistas: R$ 837 mil. Tributos, impostos e encargos em atraso: R$ 1,7 milhão. Esses valores são referentes ao “exigível de curto prazo”.
O total de “contas a pagar” é de R$ 28,7 milhões. Aqui, o“grosso” é com o “exigível de longo prazo”, como, por exemplo, dívidas com bancos diversos, no valor de R$11,9 milhões (valor de liquidação em 10/01/17). Deste total, com o programa Desenvolve SP: R$ 9,4 milhões. Banco Santander: R$ 1,9 milhão. Caixa Econômica Federal: R$ 483 mil. Além de refinanciamentos: R$ 4,1 milhões; e com a Prefeitura de Fernandópolis (principalmente por serviços de coleta de lixo hospitalar, entre outros),que chega a R$ 1,2 milhão. O total da “dívida líquida estimada” da Santa Casa é de R$ 25 milhões, com um déficit mensal contínuo de R$ 589 mil.
IMPACTO UPA
Mesmo com a diminuição de 50% da demanda no Pronto-Socorro após a inauguração da UPA - Unidade de Pronto Atendimento 24h -, Maldonado disse que a situação do PS “já era prevista”. “O fechamento do Pronto-Socorro foi muito mal explicado, embora já fosse previsto. Sem os R$ 180 mil repassados por mês pela Prefeitura, o funcionamento do nosso PS é inviável”.
QUAL A SAÍDA?
Além de todos os números relativos à situação financeira da Irmandade, a nova diretoria também apresentou uma série de “iniciativas gerenciais”. Entre elas, a negociação com médicos que possuem empresas prestadoras de serviços dentro da Santa Casa, como o caso do Raio--X - que consumiria cerca de 50% do valor recebido pelo exame.
Valores precisos de contratos semelhantes a este para a realização de Raio-X só poderão ser apresentados, de acordo com a nova diretoria, após um tempo maior para uma ampla análise dos vários contratos existentes com médicos, os quais, como assegurou Sartin, “vêm sendo prorrogados há muitos anos”.
FOCO GERENCIAL
O principal item dentro das iniciativas denominadas como “foco gerencial” foi este: verificar a oportunidade ou o interesse de uma O.S.S. em administrar a Santa Casa.
Neste momento, a atual diretoria, com anuência do provedor Sartin, abriu as portas do hospital a uma possível parceria com uma Organização Social de Saúde. Foi citado, inclusive, o nome do “Frei Francisco”, como é conhecido o Padre Nélio Joel Angeli Belotti, fundador do Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, na cidade de Jaci/SP.
“Seria interessante uma parceria com o ‘Frei Francisco’, pois ele consegue, em todos os hospitais que atua, aliar duas fundamentais ações: experiência em administração médico-hospitalar e seu potencial para alianças políticas”, cravou Maldonado.
Em relação às propostas do deputado estadual Gilmar Gimenes, que condicionou“apoio” à Santa Casa a uma auditoria, e também do vereador João Pedro da Caixa, que suscitou até mesmo uma “intervenção judicial” aos moldes da ocorrida na FEF, Edilberto Sartin ponderou.
“Tivemos uma reunião com Gilmar Gimenes na quarta-feira (18). Quando nós mostramos a ele este levantamento que vocês estão vendo, ele disse que não precisaria de mais nada, que nós tínhamos feito o necessário. E ele também nos assegurou que não fez referência a uma possível ‘auditoria’, e sim a uma ‘consultoria’. Em relação à proposta de intervenção judicial, nós aqui, nestas últimas semanas, já estamos fazendo esse papel, levantando toda documentação e valores possíveis. E estaremos sempre à disposição para os esclarecimentos que forem necessários. A Santa Casa está de portas abertas. Estamos, depois de muita cobrança, abrindo a ‘caixa-preta’”,concluiu.

Além dos atrasos com a folha de pagamento dos funcionários e corpo clínico, há dívidas com fornecedores: R$ 1,5 milhão.