Desde cedo, por volta dos doze, treze anos de idade, me acostumei a ler jornal. Devo ao meu pai essa herança. No início da tarde, ao voltar do trabalho, trazia debaixo do braço um exemplar do Jornal da Tarde. No início, me atinha somente às páginas esportivas.
À época, poucas transmissões televisivas, sem a internet, restavam apenas ler e imaginar.
Em pouco tempo aventurei-me nas páginas culturais. Comecei a ler críticas de cinema. Encantaram-me. Não entendia nada, porém, me fascinava pensar como um ser humano era capaz de escrever tanta coisa acerca de um filme.
Menos de um ano após essa prática, lia o jornal inteiro, diariamente.
Certa vez, meu pai chegou em casa com um exemplar da Folha de São Paulo, alegando que trocara o periódico em razão do antigo ser muito anti-corintiano. Não entendi completamente. Todavia, sem não gostavam do Corinthians, logo, também não gostava deles.
Tornei-me leitor da Folha. Era mil novecentos e setenta e oito.
Quatro anos depois, já na graduação, um amigo ofereceu-me a assinatura do Jornal Folha de São Paulo. Comentei com meu pai. A aceitação foi imediata. Tornamo-nos assinantes do rotativo.
Acompanhei toda revolução gráfica, tecnológica e conceitual daquela Folha. As quais, por mérito e competência, transformaram-na no melhor jornal do país e um dos melhores do mundo.
Aquele Jornal acompanhou todos os momentos críticos e trágicos de nossa história recente. Foi digna e justa em 1984: apoiou o movimento “Diretas Já”. Demonstrou tristeza e indignação com a derrota do mesmo na Câmara Federal. Sempre pareceu crítico e imparcial. Pareceu...
Em 1989 passei a duvidar disso. Ficou meio escancarado que boa parte da direção do jornal nutria simpatia por Collor. Assim que tomou posse, as lambanças e canalhices do playboy tornaram-se óbvias: hora de limpar a cagada. O jornal foi implacável na defesa do impeachment.
As simpatias por FHC e o PSDB foram clareando. A cobertura me parecia mais parcial e parcimoniosa com essa agremiação partidária. Havia sempre mais tolerância com seus quadros.
Todavia, o hábito de ler o jornal, minha cachaça diária, com sempre disse, sempre prevalecia. Havia justificativas: um time de colunistas e colaboradores excelentes, acima da média. A começar no primeiro caderno com aquele que me é uma referência ética e profissional, uma “reserva moral” desse país: Jânio de Freitas.
Além dele, Otto Lara Resende, Claudio Abramo, além disso, o caderno cultural, a “Folha Ilustrada” sempre fora ótima. As críticas de Inácio Araújo e Sergio Augusto, por exemplo.
Com o passar dos anos, continuei fiel ao hábito: leitura diária do jornal.
A mudança para Fernandópolis produziu um drama: em São Paulo, recebia o periódico antes das seis da manhã. Saía de casa com ele lido. Aqui, somente depois da dez. Adaptar-me a essa realidade foi difícil. No entanto, continuei a lê-lo.
Trinta e quatro anos de assinatura de Jornal, trinta e oito anos de leitura diária do mesmo.
Nos últimos anos minha insatisfação aumentou muito: o rotativo me parece uma voz oficial do PSDB. Suas críticas a esse partido e a seus quadros existem. Porém, são menores. Não recebe o mesmo destaque do PT por exemplo.
Denúncias, críticas, devem ser realizadas. Afinal, é papel do jornal. Todavia, com isonomia, com equidade. Destaque igual. Não é.
Vale lembrar: essa mesma Folha apoiou o golpe militar em 1964.
Pois bem, no domingo, 03/04 de 2016, ao receber o Jornal, por volta das dez horas da manhã, me pus a lê-lo. Senti um “embrulho” no estômago: o editorial. Esse clamava pela renúncia da presidente.
Já discuti esse tema. Não retornarei. Minha posição a respeito, creio, é conhecida.
Apego-me em outro aspecto: a história. Repetida em forma de comédia. 1961 renúncia de Jânio Quadros. Logo em seguida? Golpe e Ditadura Militar.
Filme parecido. Não lhes parece? A mim, sim.
Paranoia ou não, não pretendo arriscar. Não é hora de brincadeiras.
Não é papel de jornal. Avaliei como irresponsabilidade escancarar preferências partidárias, principalmente nesse momento.
Acrescente ao fato, o desgosto pela queda vertiginosa na qualidade do caderno de cultura.
Desculpe-me, Juca, PVC, Tostão, Jânio de Freitas, Contardo Calligaris, Marcelo Coelho.
Cancelei minha assinatura!
Causou espanto ao atendente, em função da data da mesma.
Foi estranho ao acordar na segunda-feira, parecia o fim de um casamento. Não deixa de ser. Porém, nesse caso, não havia como discutir a relação.