Jacqueline Ruiz

Em tempos obscuros não dá mais pra ficar neutro

Em tempos obscuros não dá mais pra ficar neutro

JACQUELINE RUIZ PAGGIORO

JACQUELINE RUIZ PAGGIORO

Publicada há 9 anos


O meu escritor predileto, Mia Couto, em seu livro de E se Obama fosse africano? E outras interinvenções – em que ele reúne uma série de ensaios que, originariamente foram parte de conferências e palestras que ele realizou pela África, Europa e Brasil e, que transcritos, ele chamou de interinvenções – propõe uma série de corajosas reflexões acerca dos principais impasses da África contemporânea. Corrupção, autoritarismo, ignorância, ódios raciais e religiosos, entre outros tantos temas. 


Na crônica que escrevi ano passado, intitulada Encontro Marcado, falei que conheci Mia Couto através do amigo Ari que recomendou-me a leitura do ensaio Os sete sapatos sujos, que está no livro acima citado. Belíssimo. Mas hoje vou transcrever parte de outro ensaio do livro que me tocou profundamente e que apesar de falar sobre a Moçambique do Mia tem muito a ver com o meu, o nosso, Brasil. “Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal to, Mia Couto, em seu livro de E se Obama fosse africano? E outras interinvenções – em que ele reúne uma série de ensaios que, originariamente foram parte de conferências e palestras que ele realizou pela África, Europa e Brasil e, que transcritos, ele chamou de interinvenções – propõe uma série de corajosas reflexões acerca dos principais impasses da África contemporânea. Corrupção, autoritarismo, ignorância, ódios raciais e religiosos, entre outros tantos temas. Na crônica que escrevi ano passado, intitulada Encontro Marcado, falei que conheci Mia Couto através do amigo Ari que recomendou-me a leitura do ensaio Os sete sapatos sujos, que está no livro acima citado. Belíssimo. Mas hoje vou transcrever parte de outro ensaio do livro que me tocou profundamente e que apesar de falar sobre a Moçambique do Mia tem muito a ver com o meu, o nosso, Brasil. “Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. 


Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais. 


Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que «governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo». A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos activos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar.” 


Estas palavras ainda me aturdiam, pois passei o sábado inteiro a degustar Mia Couto – em sons, imagens, letras e reflexões – preparando as perguntas para entrevistá-lo para uma próxima edição do Caderno Cultura!,  quando ao final da noite li uma postagem sobre o editorial que a Folha de São Paulo publicaria no dia seguinte. Fiquei mais perplexa ainda. Pediam a renuncia da presidenta! 


Assinamos a Folha de São Paulo, eu e meu marido, há mais de vinte anos. Se for considerar o tempo de solteiros o número de anos é maior ainda. Era, em nossa opinião, o melhor veículo de informação que havia. Com o passar do tempo, mesmo com cobertura tendenciosa, ainda valia pela qualidade de muitos de seus articulistas. Gente do calibre de Janio de Freitas, Rubem Alves, Juca Kfouri e tantos outros que passaram ou ainda estão por lá. Dentre tantos, o meu predileto: Antonio Prata. 


Quantos domingos dedicados a leituras e comentários sobre assuntos e artigos: eu e o zé Renato, com gostos muito diferentes, indicávamos leituras um para o outro, ou então líamos o que nos impressionava. A Folha é a 51 do zé Renato, ele não vive sem. 


Quando o Xico Sá foi censurado pelo periódico por revelar seu voto em Dilma nas últimas eleições ficamos tentados a cancelar a assinatura (deveríamos ter feito isso à época, nos arrependemos). O editorial do último domingo não representa a opinião do povo. 


A crise que está instalada não é política, é moral e ética: partidos tentando impedir que seus caciques e asseclas sejam investigados e punidos. E para isso elegeram a “jararaca” expiatória e sua sucessora. 


Quem tem memória, leitura crítica e reflexiva e sofre as consequências nefastas da política neoliberal sabe muito bem que a saída de Dilma não vai melhorar em nada a situação, exceto para aqueles que estão em oposição ao governo, incluindo agora o PMDB. O contrário, se Dilma sair, vamos continuar na mesma meleca de sempre, pois sairão as moscas do PT e continuarão as moscas dos outros pês (tem também um S do notório pelegão Paulinho e outras letras nanicas). E a maioria dos direitos sociais conquistados deixarão de existir. 


Não defendo a política neoliberal adotada pelo programa do Lulinha Paz e Amor e o continuísmo dela com a Dilma Coração Valente que se aliaram ao que há de mais nefasto em matéria de corrupção. Seus projetos de governo são políticas que nada têm de comunistas, socialistas e afins. Mas, em respeito às conquistas (poucas, muito poucas) das classes trabalhadoras e em respeito à participação que a Democracia precisa para continuar a existir, sou contra o golpe do impedimento. Tenho verdadeiro ASCO da maioria dos políticos do PSDB que sempre souberam burlar e continuam burlando a rés publica  com o consentimento de um sistema corrupto e corruptor! E que são acobertados por gente de toda a espécie e em todas as instâncias, e empresas, dentre elas os grupos de comunicação. 


E no domingo mesmo, eu e o zé Renato, resolvemos: cancelamos a nossa assinatura do jornal. (Não sei se ele não vai ter crise de abstinência, ele mesmo diz que jornal é sua cachaça. Creio que não resistirá à tentação e, lá na escola em que trabalha, ao menos às quintas feiras vai ler o Juca no caderno de esportes e o Calligaris na última página da Ilustrada.) Entre calar, falar, pensar e agir. Em tempos obscuros não dá mais pra ficar neutro. Da minha parte, como cidadã ativa – e o Antonio Prata que me perdoe – não leio mais a Folha de São Paulo!




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