OPINIÃO

Artigo: Carta para um amigo

Artigo: Carta para um amigo

“...um liberal é capaz de ser progressista nos costumes e conservador no que se refere às instituições;”

“...um liberal é capaz de ser progressista nos costumes e conservador no que se refere às instituições;”

Publicada há 3 horas

As provocações de amigos são bem-vindas. Explico melhor: as provocações de ideias, quando razoáveis e sensatas no debate, são mais que bem-vindas. Foi o que ocorreu por esses dias. Um amigo estimado, de passagem pela cidade, deixou no ar – e no meu espírito – algumas inquietações. Fez tudo muito rápido, num lampejo único, correndo as velas para partir.

A primeira aflição causada veio da insensatez daquilo que não vai direto ao que interessa: uma pergunta, embora desafiadora, soando vaga; a segunda, a promessa de que logo discutiríamos a questão confrontadora tomando uma cerveja. Consigo conviver com a ausência da discussão, mas com a privação de uma cerveja, aí é demais, imperdoável.

E qual era a pergunta? Sabendo que sou um liberal, me indagou acerca do sentido contrário ao liberalismo. Não sei se entendi bem. Ele, como progressista – será isso? –, vê com suspeita minha postura liberal. Caro amigo, entre na fila; por aqui o que não faltam são pessoas pensando a mesma coisa sobre mim.

A pergunta, com todo respeito, nobre colega, não faz o menor sentido. Me parece, a princípio, que você busca definições. As asneiras comportamentais dos eleitores de hoje estão como estão exatamente por se prenderem a conceitos limitadores, pois acabam condenados à defesa de uma ideia fixa – que, bem sei, não é o teu caso.

Na esfera política, e ainda mais na esfera democrática, o fator primordial é a nossa temperança. Refletir as variáveis da individualidade e do coletivo constitui uma justa sustentação do pensamento político representativo. É sabido que as equivalências dos eixos “liberalismo” e “conservadorismo” não são gerais; semelhante caso se dá com a insustentável aproximação entre “progressismo” e “socialismo” – hoje o termo “socialismo”, contudo, encerra em si apenas um objetivo cerceador idiota.

 Recoloco os termos: um liberal é capaz de ser progressista nos costumes e conservador no que se refere às instituições; um progressista contempla avanços também nos costumes e direitos, sem erguer a bandeira do socialismo e do exagero estatizante. Particularidades, as eternas particularidades que confundem as pessoas.

Recorro, de novo, a Norberto Bobbio. Em seu maravilhoso e didático livro Liberalismo e Democracia (Edipro, 2005), ele percorre as transformações históricas da visão liberal, mostrando como posturas contraditórias nem sempre são incompatíveis. Nesses termos, o liberalismo entendeu, já em seus primórdios, que as necessidades do povo, da maioria, “devem ter poder limitado”. Exemplo: toda multidão é perigosa pelo fato de ser multidão. O que nada tem a ver com a insanidade da extrema direita que não respeita a manifestação nas urnas, método decisório e constitucional.

De igual maneira, Bobbio comenta que para muitos dos fundadores do pensamento moderno a individualidade tampouco deve estar acima ou em conflito com as necessidades da comunidade. Tanto a liberdade individual quanto a coletividade serão mais democráticas quando corrigirem melhor a desigualdade – algo notório no mundo das liberdades e dos direitos. Por isso, não existem antagonismos; existem, sim, nuances. Assim como cada crime, antes da sentença do juiz, será analisado segundo suas circunstâncias, posto que a lei seja, na maioria das vezes, rígida em sua essência. Creio que captou minha provocação (risos).

No fundo, suponho que tua crítica corresponde mais ao livre mercado. Nesse ponto, estamos de acordo. E assino embaixo das análises de Marx acerca das relações de produção, do conceito de mais-valia e da exploração. O liberalismo econômico irrestrito é um sistema de risco.

Nas palavras de Bobbio, uma sociedade democraticamente igualitária não significa uma sociedade homogênea. Percebe, meu amigo, que esse é o modus operandi da extrema direita e de todos que a seguem? Ou seja, o medo monstruoso que se criou com o progressismo advém, em grande medida, da distorção do conceito “socialismo” (e de sua relação com o progressismo), o qual tornaria tudo branco e preto, interditando a liberdade individual. Segundo Bobbio, os que “oscilam entre os extremismos opostos permanecem sempre iliberais”.

Volto à questão inicial. Volto a mim. Esperar uma frase pronta, que resuma as forças antagônicas – presente em muitos momentos, é certo – pode respingar nos “extremismos opostos”. Não nego que, pela rapidez da pergunta e pela velocidade com que partistes, não me furto a tê-la compreendido mal.

De fato, confesso, eu estou mais para um liberal-socialista – corrente muito praticada na Europa, com seu welfare. Não devemos ser reféns dos erros dos políticos. No Brasil, Direita e Esquerda são espectros confusos. Seja liberal e/ou conservador, seja progressista e/ou socialista, o reforço da representatividade individual e coletiva representa expandir as noções de política e cultura. Para citar uma última vez Bobbio, a igualdade possível encontra-se na liberdade de uns não ofender a igual liberdade dos outros. Nisso residem os direitos dos homens enquanto cidadãos.

P.S.: Quem sabe tua resposta, se vier algum dia, traga consigo uma cerveja. Uma ideia (ou discussão) seguida de um brinde é sinal de comunhão social entre reflexões individuais. Um forte e afetuoso abraço.

  Gil Piva

O texto é de livre manifestação do signatário que apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados e não reflete, necessariamente, a opinião do 'O Extra.net'.


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