OPINIÃO
Artigo: Maria Amélia de Oliveira, mulher forte e discreta pioneira de Fernandópolis
Artigo: Maria Amélia de Oliveira, mulher forte e discreta pioneira de Fernandópolis
Por: Carlos Eduardo Maia de Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis
Por: Carlos Eduardo Maia de Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

Maria Amélia de Oliveira simplesmente fez parte dos primeiros moradores de Fernandópolis, na verdade, por aqui se instalou bem antes da inauguração da nossa cidade.
Dona Maria Amélia se casou com Antônio Candido de Souza no ano de 1926 em Campos Gerais, sul do estado de Minas Gerais e, no mesmo ano, mudou-se para Fernandópolis.
Na época, nem existia Vila Pereira e Brasilândia, as vilas que originaram Fernandópolis.
Seu marido adquiriu uma propriedade rural próximo ao córrego do Gatão, nos arredores onde, atualmente, localiza-se o Thermas do Água Viva.
Teve oito filhos: Alvarina, Manoela, Augusta, Izaura, Sebastiana, Laurinda, Geraldo e Cristovão. Quase todos falecidos, com exceção do Geraldo que vive, atualmente, na cidade de Populina-SP.
Ao chegar por aqui, em 1926, ajudou o seu marido a desbravar esse imenso sertão, iniciando o cultivo das primeiras lavouras nesse chão que um dia pertenceria ao nosso município.
Ficou viúva aos 33 anos, após o assassinato de seu marido, Antônio Candido de Souza, com oito filhos pequenos para criar e mais um enteado (Joaquim Inácio), fruto do primeiro casamento de seu marido. Imagina o desafio!
Logo após ficar viúva, com a venda da propriedade da família, adquiriu um sítio que abrangia o que é hoje o Parque São Cristovão, parte do bairro Jardim Santa Helena, passando pela avenida Expedicionários Brasileiros, próximo ao supermercado Sakashita, e terminando nos arredores da atual escola ETEC. Cultivou principalmente café nessa propriedade rural que um dia se transformaria em importantes bairros de Fernandópolis.
Com coragem e garra, típicos de mulheres fortes, Dona Maria Amélia criou os oito filhos e o enteado ensinando-os a trabalhar no meio rural, a serem honestos e a professarem a religião católica. Além dos filhos, também ajudou na criação de vários netos e sobrinhos, entre eles: Paulo, Geraldo, Regina, Lourdes, Clarindo, Álvaro e Expedito. E pensar que hoje, os pais modernos, têm dificuldades para criar um ou dois filhos.
Com o crescimento da cidade, as propriedades rurais, circunvizinhas ao perímetro urbano, começaram a ser loteadas; não foi diferente com o sítio de Dona Maria Amélia. Por isso, ela se mudou para a zona urbana de Fernandópolis.
Na cidade, Dona Maria Amélia se notabilizou pela sua intensa participação na igreja católica de Fernandópolis, desde os seus primórdios em Fernandópolis até o ano de 1988, quando veio a falecer.
Fundou o Apostolado da Oração, sendo presidente desta importante comissão católica.
Organizava terços em sua residência e tinha o dom de benzer, sobretudo as crianças. Sempre usava um raminho de planta com água benta para benzer. Por falar em planta, Dona Maria Amélia tinha um bom conhecimento sobre ervas medicinais adquirido quando o nosso município era sertão - obviamente não existiam farmácias, e as pessoas tinham que se valer das plantas medicinais para aliviar as dores e os sintomas das doenças.
No quintal de sua casa não faltavam erva cidreira, caferana, boldo, dentre outras ervas medicinais.
Quem a visitava em sua humilde casa era recebido pela Dona Maria Amélia com toda a sua simpatia e a sua atenção. Os visitantes sempre eram convidados a experimentar o seu delicioso chá servido naquelas tradicionais xícaras de cor creme da década de 1980 durante a conversa.
Dona Maria Amélia era uma senhora simpática, carismática, atenciosa e sábia. Sua sabedoria foi adquirida ao longo de sua vida repleta de experiências, muitas difíceis, mas nenhuma que ela, mulher forte, pudesse suportar (poucos, hoje em dia, suportariam o que ela já passou em vida). Todas estas características a credenciaram a ser uma verdadeira matriarca da família Oliveira, com expertise e exemplo de vida para dar conselhos valiosos a todos que a procuravam.
Voltando a falar de sua religiosidade, Dona Maria Amélia teve uma fé inabalável em Deus, era devota fervorosa de Nossa Senhora Aparecida.
Era tão atuante na igreja católica que o vigário, na época, permitiu que parte do seu velório fosse realizado no interior da igreja matriz de Fernandópolis, onde foi celebrada uma missa de corpo presente. A propósito, foi a última vez que foi permitida missa de corpo presente na Igreja Matriz Católica de nossa cidade.
Dona Maria Amélia faleceu no dia 06 de outubro de 1988, terminando sua jornada nessa vida e deixando um legado inestimável para os seus familiares e amigos.

Dona Maria Amélia. Foto: Arquivo pessoal
Pessoas como a Dona Maria Amélia de Oliveira (pioneira de nossa cidade) que, ao chegar ao nosso município quando por aqui só existia mata fechada e poucas estradas poeirentas, que lutou junto com o seu marido para desbravar esse sertão bem antes do nosso fundador unir as duas vilas (Pereira e Brasilândia) e assim nascer Fernandópolis, merece o nosso total respeito, a nossa consideração e essa singela homenagem.
Parabéns e muito obrigado, Dona Maria Amélia de Oliveira!
Neste dia 03 de fevereiro de 2026, Dona Maria Amélia recebeu uma justa homenagem. Foram fixadas duas placas com o seu nome em uma praça bem em frente à escola ETEC de Fernandópolis.
Neste local, terminava o seu antigo sítio de café onde ela trabalhou e criou os seus oito filhos.
Homenagem justa para essa verdadeira e discreta pioneira de nosso município!
Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira (Prof. Cadu) é biólogo e cirurgião-dentista; mestre em Microbiologia e Doutor em Geologia Regional com ênfase em Paleontologia de Vertebrados; professor EBBT; coordenador de Extensão do Instituto Federal de São Paulo, Campus Votuporanga e Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis
O texto é de livre manifestação do signatário que apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados e não reflete, necessariamente, a opinião do 'O Extra.net'.