José Renato S.

Quem eu queria ser

Quem eu queria ser

José Renato Sessino Toledo Barbosa

José Renato Sessino Toledo Barbosa

Publicada há 9 anos

Escrevo essa coluna em quatro de abril de dois mil e dezesseis. Dia em que se completam cento e três anos do nascimento de um dos nomes mais fundamentais da música no século XX: Muddy Waters.


Aquele que eletrificou o blues do Mississipi, na Chicago dos anos trinta. Um dos pioneiros da guitarra elétrica, no ritmo que exacerbou a sensualidade nas letras e, sobretudo, na música. Seu instrumento, meloso por si só, ganha mais sex appel com o slide.


Muddy é o cara. De letras sensuais e humanas. Fala da dor, das perdas, “da vida como ela é”. Sempre “temperado com sexo e sensualidade”. Todavia, longe de ser vulgar.


O velho Muddy sabia das coisas.


Assumiu a condição de bardo do Mississipi. Numa terra da qual brotaram Charley Patton, Bukka White, Son House, John Lee Hooker e Howling Wolf – seu maior rival – e, lógico, Elmore James.


Recém-chegado a Chicago, conseguiu gravar na lendária Chess Records, do mítico Len Chess. Rapidamente transformou-se em seu maior expoente.


A gravadora e suas composições e músicas ganharam a América. Com um grande salto mediante a parceria com o baixista e letrista Willie Dixon.


De uma de suas composições Muddy foi referência para o batismo de um dos maiores grupos da história da música contemporânea: The Rolling Stones. Divinizado no momento em que os jovens britânicos foram a Chicago, gravar na mítica Chess. Aquele encontro seria fundamental.


Muddy acolheu Little Walter, lançou-o ao estrelato. Infelizmente, seu temperamento e exageros levaram-no à morte prematura.


Enquanto isso, sua rivalidade com Howling Wolf exacerbava.


Chuck Berry, cria da Chess, explodiu em vendas, logo tornou-se também um mito. E Muddy viu sua carreira paralisada pelo rock.

A morte de Walter e a prisão de Chuck não arrefeceram o ostracismo que enfrentava.


Alguns anos depois, no início dos anos sessenta, após a visita dos britânicos, recebeu a notícia de um convite: ir à Inglaterra. Apresentar-se e gravar. Temerário, aceitou. Os tempos eram difíceis.


Foi recebido como merecia, tapete vermelho, exército de fotógrafos: o negro do Mississipi conquistava a branca Inglaterra, seus antigos colonizadores. O Blues se revigorava.


Desde então, o mercado branco, definitivamente, passou a ouvi-lo e divinizá-lo. Como sempre mereceu.


Ter o privilégio de ver e ouvir Muddy, suas letras e sua guitarra, é um privilégio incomensurável. É a voz de Deus.


Conquistou a Inglaterra, a Europa, os Estados Unidos e o mundo.

Foi parar no filme “A Última Valsa”, despedida do grupo The Band, o qual acompanhou Bob Dylan por dezesseis anos. Cantou “Mannish Boy”.


Morreu de câncer em 30/04/1983, aos sessenta e oito anos.


Personificou a sensualidade, a dignidade, a força do blues, foi seu grande rei. Humilde como os sábios, proferia palestras em universidades. Falava da vida, de sonhos e combatia o racismo e a burrice. Era exemplo.


Seria ele, se pudesse escolher um personagem da música para me transformar, 




sem dúvida alguma.

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