Gil Piva

O professor “coitadinho”

O professor “coitadinho”

Por Gil Piva

Por Gil Piva

Publicada há 8 anos

Após uma breve matéria do Jornal da Cultura sobre como os jovens não se veem como professores, a educadora e comentarista convidada, Guiomar Namo de Mello, exibiu uma postura interessante e original.


Interessante por dizer o que pensa e original pelo que pensou e disse. Segundo ela, frases do tipo “professores são mal remunerados”, “não possuem qualidade profissional para o ensino, por isso são desrespeitados”, etc. não passam de ideias adquiridas por um discurso hoje dominante, porém outrora repetido. Concordo.

Ou seja, a sociedade, em sua maior parte, repete essas sentenças de tanto ouvi-las e, pelo se consta, por pouco entenderem do assunto, temem discordarem. Novamente, concordo.


Guiomar completa seu raciocínio dizendo que se queremos que os jovens pensem na possibilidade de exercer o magistério, precisamos, antes, mudar nosso discurso e valorizar os professores. Pela última vez, concordo. Mas...


A meu ver, o próprio discurso da educadora esconde uma falácia. Sem querer, talvez, ela esteja alegando que essas ideias provêm da máxima de que uma mentira repetida inúmeras vezes se torna verdadeira; o que, então, dizer o contrário significaria transformar uma verdade numa mentira para os jovens, diga-se de passagem, que assistem de perto os problemas educacionais dentro de uma sala de aula. Dito de outro modo: os jovens temem enfrentar o que eles mesmos não negam ser: criaturinhas pouco amáveis.


Dona Guiomar finaliza que devemos parar de estampar a imagem de “coitadinho” do professor; ora, é exatamente no aluno, num papel regido pelo Estado, que e hoje manifesta a exata imagem incontrariável de coitadinho, onde, inclusive, se chega a perpetuar, por uma pedagogia barata, que não existe indisciplina, apenas aula mal dada, ruim.


Para fim de conversa, o que me aflige é que sua postura não possui a argúcia necessária para nenhuma discussão mais profunda. Pedro Demo, em seu livro Intelectuais e Vivaldinos, clareou bem o fato de que “não há conclusão autêntica na ciência social contestadora, nem que o sistema seja insuperável”. Se, como quer dona Guiomar, os enunciados herdados não nos levam a nenhum destes dois pontos, esvaziá-los tão pouco contribui.


***


O fabuloso romance de Gabriel García Márquez, Cem Anos de Solidão, está completando 50 anos. Não se trata de meio século de um livro isolado; trata-se, antes, de um precursor relativamente ligado à identidade cultural à beira de uma construção da literatura nacional, seguindo um enfoque comparatista entre ambas.

Junto com Mario Vargas Llosa e outros, García Márquez passou a elaborar, neste que seria seu segundo romance e sua obra prima, uma escrita para longe dos moldes tradicionais de algumas teorias europeias. Foi uma transformação misturada a enfoques culturais e históricos; daí porque sua recepção teve uma grande aceitação.


O diálogo intertextual que se remonta no interior do romance – por isso a alcunha de realismo fantástico – se dá entre uma camuflada crítica de identidades e a dinâmica histórica.


A multiplicidade da literatura latino-americana é tamanha, que bem se poderiam elencar cinquenta tons de planos de construção em Cem Anos de Solidão. Sem exagero, o fenômeno do livro fica marcado por sua pluralidade inventiva como relação diretamente exercida a partir de uma universalização de gênero – literatura latino-americana – e de uma singularidade linguística.


Cem Anos de Solidão representa o papel de García Márquez e seus compatriotas como unificadores continental – que seria a língua e a experiência literária. Temos, assim, uma expressão universal de uma literatura irrestrita.


Eis uma obra que indico não apenas a leitura, mas, se possível, uma releitura.



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