Dia desses um amigo me pediu para escrever sobre Camus e Kafka. Mas analisar os dois requer certo grau de honestidade deste colunista que vos fala, afinal não sou do tipo que encontra nos fragmentos de minhas lembranças literárias encontros e continuidades apenas de teor teórico. Sou muito mais do tipo que os lê a partir de uma necessidade instigante e verdadeiramente comum entre o ofuscamento e indefinível absurdo das ambiguidades da vida.
Kafka é o tipo de autor que nos arrebata diante das explicações do inconsciente. E Camus, diante de uma aspiração ao nada.
No mundo inconsistente das histórias de Kafka, vemos tudo aquilo que é acidental e imponderável. Por exemplo, em O Processo, a personagem se vê de repente sendo julgada por um crime desconhecido. Em A Colônia Penal, a personagem Observador não entende como alguém pode ser punido sem saber a razão, a pena e sem direito a defesa.
Já O Estrangeiro, de Camus, exalta a figura de um homem que sem querer dispara e mata uma pessoa. Mas, a toque de caixa, seus maiores crimes estarão no fato de não ter chorado no velório da mãe. Todo o julgamento é de uma subjetividade que atinge muito mais o estranhamento de seu comportamento que seu crime propriamente dito. Como dizia Kafka, em um de seus mais belos aforismos: “Uma gaiola saiu à procura de um pássaro”.
As leituras e releituras de Kafka reproduzem quase que com fidelidade metáforas baseadas em sua própria vida. Ele é o autor tuberculoso resignado. Resignado a respeito do desastre, do pecado, da ironia impura de cada um de nós, como criatura – “a agonia do desespero proporcionando a prova esmagadora de que se está vivo”, para parafrasearmos de forma breve Erich Heller (que escreveu um maravilhoso livro ensaístico intitulado Kafka).
Mergulhando nesse significado, podemos ainda acrescentar que “só há o desmoronamento e o nada... [a] recusa à esperança e o testemunho de uma vida sem consolo”. Adivinhem. Foi Kafka quem disse isso? Não, foi Camus, em seu fabuloso O Mito de Sísifo.
Mediante minha sincera e perpétua melancolia, compactuo com Camus, segundo o qual a liberdade profunda provém do absurdo – postulado que nos carrega para longe da ilusão da vida.
Camus dizia que o absurdo me esclarece que não há o amanhã. E “de todas as glórias, a menos enganosa é a que se vive”. Então como explicar os absurdos vividos nas histórias de Kafka? Seriam vidas enganosas? Pelo contrário: o inusitado que se firma naquilo que se vive é a clareza grotesca que o cotidiano acoberta pela razão vazia.
Trocando em miúdos, viver é menos enganoso porque exige o ato de liberdade constante, todavia, a mesma liberdade põe por água as ilusões do mundo como fenômeno enriquecedor e belo. O real nos desloca e nos dilacera.
Sísifo é a figura grega que, castigada pelos deuses, rola eternamente uma pedra até o topo da montanha. Quando está prestes a alcançar o topo para lá deixá-la, suas forças minguam e a pedra desce ladeira abaixo novamente.
A título de brincadeira, consigo imaginar Camus escrevendo sobre Kafka, como se este fosse seu Sísifo, obstinado a arrolar suas obras num próprio autoabandono, sem final feliz, sofrendo isolado sua doença da fome de escrever e escrever e escrever. Um esforço sem fim, porém redentor.
Concordo com Kafka, quando expressa ser “uma fé como guilhotina, tão pesada e tão leve”.
P.S.: Quem quiser conhecer um pouco mais sobre Kafka, além de suas famosas obras, recomendo o livro Kafka Essencial (ed. Penguin Companhia, 2011), que é onde se encontram seus aforismos e contos.
P.S.2: Torço para que o leitor tenha sobrevivido ao tom amargo deste texto.