Corria o mês de abril de 2004 quando recebemos uma ligação telefônica de um veterinárioa respeito de um achado espetacular em uma fazenda localizada em Fernandópolis.Meu amigo Béco, professor de Geologia na Fundação Educacional de Fernandópolis (FEF), o engenheiro João Tadeu, também da FEF, e eu, professor de Paleontologia naquela instituição de ensino na época, curiosos, dirigimo-nos à propriedade ruralpara conferir a descoberta e, de fato, ficamos surpreendidos. Tratava-se de um fóssil e, na época, não tínhamos ideia de qual seria a espécie; porém, sabíamos que era antigo, muito antigo, devido às condições do esqueleto, que se apresentava petrificado e incrustado na rocha.
Para esclarecer o leitor não afeito ao assunto: fósseis são restos e vestígios de seres vivos muito antigos ou evidências de suas atividades biológicas (com idade mínima estimada em 11 mil anos), como ossos, dentes, carapaças, ovos, cascas de ovos, coprólitos (fezes fossilizadas), garras, conchas, escamas, entre outras estruturas. No caso, aquela ossada, que repousava em terras fernandopolenses, pertencia a um animalque morreu naquele local há, aproximadamente, 80 milhões de anos, ou seja, um tempo incomensurável para os padrões humanos, especialmente para quem não está acostumado a lidar com Paleontologia (a ciência que estuda os fósseis).
A partir daquela descoberta, tomei gosto pela Paleontologia e investi grande parte de minha carreira acadêmica nessa área e, 13 anos mais tarde, juntamente com um grupo de amigos paleontólogos que se encontram espalhados por alguns estados brasileiros (Rodrigo MiloniSantucci e Marco Brandalise de Andrade, entre outros), fizemos outras descobertas interessantes, além das fronteiras de Fernandópolis, em cidades regionais como Jales, General Salgado e Auriflama.
Foram descobertos fósseis de dinossauros (carnívoros e herbívoros) e, principalmente, de um crocodilo pré-histórico, extinto há muito tempo, denominadoBaurusuchus pachecoi (pronuncia-se “Baurusucus pachecoi”). Era um crocodilo diferente dos atuais, pois tinha pernas alongadas, cabeça achatada lateralmente, olhos nas laterais da cabeça e dentes localizados apenas na região anterior da boca. Não era semiaquático, como os crocodilos atuais, mas possuía hábitos totalmente terrestres, como os lagartos modernos. Podia alcançar 4 metros de comprimento e era o rei dos carnívoros na região Noroeste do estado de São Paulo naquela época remota.Ah! A descoberta ocorrida naquela fazenda de Fernandópolis eram ossos da bacia desse crocodilo, cuja concepção artística da espécie está ilustrada na figura a seguir.

Figura 1: concepção artística docrocodilo pré-histórico chamado Baurusuchus pachecoi cujo esqueleto foi encontrado em Fernandópolis e região.
Fonte: imagem gentilmente cedida pelo paleoartista Felipe Alves Elias.
Dentre os mais interessantes fósseis que encontramos desse maravilhoso animal pré-histórico, destaca-se um crânio e uma mandíbula bem preservados e dezenas deninhoscom cascas de ovos (figura 2), descobertos em uma bela fazenda no município de Jales. Os ninhos renderam um trabalho científico que foi publicado em uma revista britânica e apresentado em congressos internacionais em países como Estados Unidos, Irlanda e Escócia.

Figura 2: Imagem à esquerda retrata o crânio do crocodilo pré-histórico Baurusuchus pachecoi; imagem à direita retrata um ovo de crocodilo pré-histórico incrustado na rocha (barra de escala de 5 centímetros).
Outra descoberta fascinante, realizada por um amigo paleontólogo de General Salgado, professor João Tadeu Arruda, no qual tive o prazer de trabalhar em algumas escavações na região, foi uma costela de 1,20 metro de comprimento de um colossal dinossauro herbívoro chamado Titanossauro (figura 3). Esse dinossauro podia alcançar mais de 12 metros de comprimento (da ponta do focinho à extremidade da cauda) e 6 metros de altura. Esse osso fossilizado também tem idade estimada de 80 milhões de anos. Essa descoberta ocorreu no município de Auriflama e é uma prova de que esse gigante viveu em nossa região.

Figura 3: Imagem A (acima) revela uma costela de 1,20 m de comprimento do Titanossauro (dinossauro herbívoro); imagem B (abaixo) ilustra a concepção artística de um esqueleto completo de Titanossauro.
Um fato curioso é que, ao lado dessa costela, foram encontrados dentes de dinossauros carnívoros. Supõe-se que foram perdidos por eles ao se alimentarem da carne presente na costela do Titanossauro.Esses dentes são achatados como lâminas de uma faca bem afiada, apresentam serrilhas cortantes nas bordas e, até hoje, são capazes de cortar o braço de uma pessoa (figura 4).

Figura 4: três dentes de dinossauros carnívoros encontrados na região rural do município de Auriflama.
Foram muitas aventuras e descobertas nesses 13 anos de pesquisas e os resultados foram, dentre outros, a constituição de um rico acervo de fósseis depositado na Fundação Educacional de Fernandópolis, a conquista de novas amizades na área, aquisição de conhecimento, um doutorado eparticipação em publicações de artigos científicos. Mas o que me emociona mesmo, nessa história, é ver o brilho nos olhos atentos das crianças ao mostrar os fósseis de dinossauros a elas em minhas palestras nas escolas da região: quando me deparo com essa cena, fico muito satisfeito e penso que tudo valeu a pena.