José Renato Se

Kid: Play It.

Kid: Play It.

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor

Publicada há 8 anos

O longínquo 1983 caracterizou-se por sonhos de mudanças: sim, sonhávamos em derrubar a ditadura; construir um Brasil melhor; sonhávamos em revolucionar. O Punk agonizava na Europa e Estados Unidos. Keith Moon e Bonham já haviam morrido. Exceto os Stones – são supra-humanos -, o rock, como estética e proposta, já havia posto termo à vida. Todavia, novos ventos sopravam da Europa e dos EUA.: The Clash, The Smiths (para aqueles que gostam.), The Cure.


O Brasil vivia um surto diferente: Titãs, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Ultraje a Rigor (“A gente somos inútil” é uma obra prima.), Premeditando o Breque e um grupo chamado Magazine, cujo cantor atendia pelo vulgo de Kid Vinil. “Sou Boy, boy, sou Boy...”... Quem é da “minha época lembra”. é fato, os novos parâmetros musicais eram balizados num raro e genial programa, apresentado na TV Cultura, chamado “Fábrica do Som”. A cargo de Tadeu Jungle, pautava-se em mostrar o novo, não o popularesco, porém o inusitado, a qualidade. Lançou Arrigo Barnabé e a Banda “Sabor de Veneno”, o grupo Rumo, Itamar Assumpção, ‘ressuscitou’ Walter Franco. Recordo-me de um programa dedicado a contribuição musical do poeta Augusto de Campos. 


Enfim, era espetacular. Caetano e Gil estavam à mil. Kid Vinil e o Magazine contribuíram muito na cena rock do Brasil. Além deles, o Rio de Janeiro nos legou Barão Vermelho, Cazuza, Eduardo Dusek, Blitz. Como dizia: era um período mesclado entre a utopia de um Brasil melhor e uma certa irresponsabilidade pelo simples prazer de se “curtir”. Havia uma certa dose de nostalgia dos anos sessenta, do “Peace and Love”, “pairando no ar”. A derrota das diretas-já, o colégio eleitoral, Sarney, híper- inflação, a meu ver, sepultaram tudo isso. No entanto, apesar do recolhimento de alguns, do sumiço de muitos e a devida cooptação da indústria cultural – O que é o “Rock and Rio”? -, Kid Vinil não se retirou. Passou a lutar em outras “trincheiras”. Seu trabalho como divulgador, “garimpador”, “lapidador” de novos sons, fizeram dele uma espécie de “monumento de resistência” à mediocridade, à pobreza e burrice musicais que estavam por vir. 


Confesso: não sou totalmente cordato às suas preferências e escolhas musicais. Todavia, concordo totalmente naquilo que detestava. Mas, o que repugnava: as ditas músicas popularescas, a pobreza e alienação – à cara de Collor – que viria com os famigerados “sertanejos”. Kid já alertava àquele momento, daquilo que viria. Uma voz dissonante e resistente. Nunca compactuou com a mediocridade. Nos últimos tempos, seu trabalho concentrava-se em rádio. Estava meio sumido. é verdade. Contudo, continuava a resistir e a lutar pela qualidade musical. Há pouco, li com tristeza sobre um mal-estar que sofrera durante uma apresentação. Posterior internação. Piora do quadro clínico. Por fim, faleceu aos sessenta e dois anos apenas. Havia muito a se fazer. Tempos sombrios e acinzentados esses. Sem utopias e sonhos. A mediocridade impera. Kid: continuaremos a resistir. Não sou mais boy. Porém, ainda “damos um caldo”. Rest and Peace.


últimas