Jacqueline Ruiz

A César o que é de Cesar

A César o que é de Cesar

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Publicada há 8 anos

“E quem garante que a história
 É carroça abandonada
 Numa beira de estrada
 Ou numa estação inglória
 A história é um carro alegre
 Cheio de um povo contente
 Que atropela indiferente
 Todo aquele que a negue”

Pablo Milanés e Chico Buarque de Hollanda

 

 

– “Tenho vergonha de viver nesse país!” Esta frase ouvi diversas vezesem virtude da avalanche de noticias acerca da corrupção nos noticiários.  Depois, com o escândalo local, acerca do suposto esquema criminoso do “Bolsa Fantasma” foi a vez de ouvir: –“Que vergonha pra nossa cidade, aparecer no noticiário dessa forma!”.


Como sempre faço, sentei-me na minha cadeira “preguiçosa” tomando um bom café e apreciando a beleza do meu quintal (agora mais belo ainda, graças ao Sr. Gumercindo, que com as chuvas não pode continuar seu serviço de podas de árvore e que abriu uma brecha na sua lotada agenda de serviços e gentilmente veio me socorrer paraaparar a grama) e comecei a refletir sobre o assunto.


Reflexão (que o Zé Renato chama de Pensar, aquele com P maiúsculo) não se faz somente com o que conhecemos acerca das coisas, para que ela aconteça precisa também de diálogo e, obrigatoriamente, de leituras e releituras. Caso contrário é senso comum. E ai vira pré-conceito.


Retomei a leitura de alguns trechos da obra do Nicolau “O Príncipe” Maquiavel,mais especificamente a obra com as notas de rodapé de Napoleão Bonaparte – um diálogo do líder francês consigo mesmo, ou com o próprio autor –.  Bonaparte apoia ou contesta as considerações propostas e expõe sua opinião. Interessante o capítulo VIII “Dos que chegaram ao principado por meio de crimes”, mais interessante ainda o comentário de Bonaparte: “Com tais palavras de censura, Maquiavel parece transformar tudo isso em crime. Coitado!”Leitura altamente recomendada.


Na Folha de São Paulo, Hélio Schwartsman diz que há indícios que o Brasil nem sequer está entre os países mais corruptos do mundo, e que a corrupção tem uma dimensão cultural. E conclui: “Mas corrupção não é só cultura, que leva tempo para mudar. Segundo uma fórmula consagrada, o grau de um país depende ainda do nível dos monopólios ali existentes, do poder discricionário das autoridades e da transparência. Esses são fatores mais fáceis de mexer”. Irônica ou não, a conclusão do articulista é extremamente pertinente.


Na mesma Folha, na seção Tendências / Debates, Yves Gandra da Silva Martins intitula sua tese de “Os quatro cavaleiros do apocalipse”. Ele diz que quem busca o poder, na esmagadora maioria dos casos, pouco está pensando em prestar serviços públicos, mas em mandar, usufruir ou beneficiar-se do governo em todos os períodos históricos e em todos os espaços geográficos. Os quatro cavaleiros: o político, o burocrata, o corrupto e o inepto, são as figuras que ele utiliza para ilustrar a corrupção que se torna endêmica em uma sociedade. No inicio do texto ele informa que qualquer semelhança com pessoas ou governos é mera coincidência e finaliza com a irônica frase: “Felizmente o Brasil é uma nação que desconhece os quatro cavaleiros do apocalipse, pátria em que todos são idealistas e incorruptíveis, razão pela qual esse artigo é uma mera digressão filosófica”.


Apesar das ironias, os textos permitem ampliar as reflexões acerca da corrupção, que é endêmica em nosso país. E, mais ainda, em que medida podemos, e devemos, alterar esse quadro.


Sim, porque o corrupto não brota por “geração espontânea”, ele só se perpetua através de sua relação com o poder, seja em quais instancias forem. Denuncias e apurações podem até não ter o efeito punitivo desejado, mas já temos consideráveis avanços com a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público. Acrescidas da punição aos corruptores e o ressarcimento dos valores aos cofres públicos. Resta aguardar como ocorrerão as “blindagens” aos envolvidos. Muitos embargos infringentes ainda estão por vir se não houver uma revolução – e não apenas reformas – nas leis e nos costumes de nosso país. Portanto, a reflexão deve se transformar também em ação.


Trocar votos por bolsas, alguma coisa ou cargos, aceitar favores e benefícios, tudo isso denota privilégio – que é para poucos – necessitamos é de direitos – que é para todos –. Lembremos que toda vez que isso ocorrer estamos contribuindo para perpetuar as relações escusas com a bandalheira da corrupção.


Não me envergonho do meu país, muito menos da minha cidade. Seguimos fazendo a nossa parte (eu, a família, os amigos, e também o senhor Gumercindo que poda as árvores e a grama daqui de casa) trabalhando e atuando em nossas esferas da maneira mais correta possível. Envergonho-me dos poderosos de plantão, que da forma mais calhorda possível, estufam o peito, se dizem honestos. Até se fazem de religiosos para aparentar ser bonzinhos (corruptos hipócritas!). Lembra-me o Heitor Wernek, personagem de “Bonitinha, mas ordinária” que bradava: “EU SOU BOM”. Aliás, a obra de Nélson Rodrigues está repleta de personagens semelhantes a essa realidade.


À mulher de César não cabe ser apenas honesta. Ela tem que parecer honesta!

P.S. Escrevi este texto em dezembro de 2014,  e ele continua extremamente oportuno.


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