Gil Piva

O problema da Educação é a própria Educação

O problema da Educação é a própria Educação

Por Gil Piva

Por Gil Piva

Publicada há 8 anos

Muitos me perguntam (ou melhor, me cobram) por que eu, sendo especialista na área da Educação, quase nada escrevo sobre ela. A resposta é simples: como a vivencio embriagadoramente no dia a dia, prefiro, no meu tempo vago, delinear assuntos que me deem mais prazer.


Mas vamos lá. Tentarei responder às duas questões que mais me perseguem.

A primeira diz respeito às novas mudanças no Ensino Médio. Os leitores querem saber (na verdade, querem que eu me posicione) se sou contra ou a favor. Se espantariam se eu dissesse que nenhuma coisa nem outra? Explico.


As contradições e conflitos que tanto os professores quanto os alunos enfrentam dentro de uma sala de aula são inúmeros, que qualquer tentativa de mudança é bem vinda. Aliás, tais mudanças expressam a intenção de uma flexibilização do ensino; afinal, mais que os jovens, são os professores que andam de mãos atadas; ou seja, essa linda palavra pode ser mais útil aos docentes.


Pena que a minha descrença nos jovens é tamanha que eu também nutro um pezinho lá na incapacidade de escolha autônoma deles. Mal conseguem decidir com segurança, no fim do Ensino Médio, qual faculdade cursar, quem dirá então decidir qual disciplinar frequentar.


Toda escolha, principalmente nessa tenra idade, é desafiadora por suas próprias contradições. E o que vem a ser essas contradições? Que a imaturidade conflitante e os desinteresses dos alunos soam meio como uma viagem sem destino certo.

A maioria dos alunos será movida pela covardia de enfrentar as disciplinas com grau maior de dificuldade; na contramão, avançar mediante os caminhos dos conflitos pode ter, sim, algum efeito de utilidade.


A segunda questão levantada pelos meus leitores provém da falta de um trabalho ou convivência ética com que se deparam. Falar sobre ética é como falar sobre se Deus existe ou não. Risos? Ninguém tem certeza onde ela está ou de como encontrá-la.


De vez em quando eu e meu queridíssimo amigo Zé Renato trocamos figurinhas a respeito do assunto. Geralmente essa conversa se prolonga entre uma quantidade razoável de cerveja. Mas isto é pauta para outro texto.


Quando disse que tratar da ética se assemelha a falar de Deus eu não estava brincando. Spinoza expunha um pensamento profundo alegando que a existência substancial do homem principia da natureza das paixões, isto é, a liberdade de pensamento, o racionalismo, etc. são emanados da concepção de Deus – ou do interior constituinte do humano. Eu não sou crente, mas concordo com ele que a nossa natureza interna ordena nossas ações.


Em sue livro Ética Demonstrada à Maneira dos Geômetras, ele esclarece que muitas vezes a ética se exclui de nossa realidade porque nossas ações ordenadas são “recordações reprimidas do desejo frustrado”.


Para exemplificar, relatarei de forma breve um episódio ocorrido comigo por esses dias.


As chefas das minhas chefas trouxeram a nós, professores, um sucinto questionário. A intenção daquelas era saber de nós, anonimamente, como estas estão cumprindo suas obrigações.


A base do questionário se expressa capaz de idealizar uma “realidade” de virtudes (vontade de melhorar a gestão escolar) intrínsecas. Por outro lado, podemos chamar a isso de “vício” político, uma vez que a gravidade de quem se coloca acima dos outros e acima de suas funções ao analisar e avaliar se opõe a si pelo escólio do desejo enrubescido. Viver a ética não é tarefa fácil. Não entendeu? Leia o livro. É maravilhoso. Detalhe: trata-se apenas, na história da filosofia, de uma das inúmeras visões definidoras sobre o que seria a ética.


Resumo da ópera, como costumo dizer: ficamos canonizando demais a Educação como se ela fosse salvar o mundo, quando na verdade mal dá conta de se salvar. Diante dessa afirmação, não seria retórica repetir que o problema da Educação é a própria Educação.



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