HISTÓRIAS DO T

O Fantasma do Cine Fernandópolis

O Fantasma do Cine Fernandópolis

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos


Dia desses, vi na televisão um documentário retratando a vida e a arte do lendário AmácioMazzaroppi, o nosso eterno “Jeca Tatú”, hoje considerado por muitos como o Charles Chaplin brasileiro. Fazendo o papel do caipira simplório, Mazzaroppi, sempre foi desprezado e até ignorado pela crítica e pela intelectualidade dos anos setenta e oitenta. Passado alguns anos, hoje Mazzaroppivirou“Cult”. Vá entender.

Por falar nisso, me lembro de uma passagem que meu saudoso pai contava e se divertia muito. Bem humorado, o velho Gabriellembrava sua primeira experiência com o cinema na época que a família morava no Córrego dos Macacos, entre Rio Preto e Cedral, isso lá pelo final dos anos 30. Ele ainda era mocinho e um belo dia junto com seus irmãos mais novosforam ao cinema pela primeira vez, em Rio Preto, assistir a “Paixão de Cristo”. Acontece que antes do filme, passou um triller sobre touradas, e de repente, um grande touro Miuraparte com tudo em direção à platéia. Seu irmão mais novo, o saudosotio Tonin, assustado, saiu correndo e gritando desesperado, achando que aquele touro enfurecido ia atacar o povo. Cena digna de um dos filmes de Mazzaroppi.


Como uma coisa puxa a outra, acabei me lembrando de minha infância, quando fui poruma das primeiras vezes no Cine Fernandópolis, aí por volta de 1960, assistir uma matinê de domingo. Lógico que não me lembro do título do filme. Mas nunca vou esquecerque naquela época, o povo dizia que um dia o cinema ia afundar, porque havia sido construído sobre o primeiro cemitério da cidade. Deus iria castigar o povo por tamanha heresia, diziam alguns.


E justificavam, porque onde já se viu, construir uma “coisa do capeta’ sobre um campo santo. E tinham aqueles que caprichavam naquelas narrativas assombrosas dizendo que as caveiras sairiam da terra esticando seus braços esqueléticos e puxando pelas pernas quem estivesse dentro do cinema.Daí gente assistia os filmes com um olho na tela e outro no chão.


Para piorar o quadro e aguçar ainda mais a imaginação da molecadinha, naqueles tempos, havia na porta do Cine Fernandópolis, uma feirinha livre onde a moçadinha comprava, vendia e trocava gibis todos os domingos antes das tradicionais matinês. Muitas dessas revistas em quadrinhos tinhamnomes sugestivos como Terror, Horror, Cripta, Histórias do Além, Drácula, Lobisomem, Vampiro, etc...  e  mostravam nas capas cenários de cemitérios tenebrosos, outras traziam a imagem da morte, sempre ilustrada em tons carregados em preto e branco, mostrando uma caveira, vestindo uma capa com um capuz preto e segurando uma foice na mão. Fora as histórias de assombrações e de almas penadas que nossos pais e avôs nos contavam. Aí, juntava tudo isso com a tal história que o cinema um dia ia afundar sobre o antigo cemitério...


Um belo domingo à tarde, durante uma das concorridas matinês, o telhado do cinema começou estalar feio, fazendo um barulhão terrível, dando a impressão que iria desabar. Foi quando um “espírito de porco” teve a infeliz idéia de gritar, avisando aos berros que o cinema estava afundando sobre o antigo cemitério.  Pronto, não precisou mais nada. Numa fração de segundos estabeleceu-se o pânico geral entre a meninada. E aí amigo, salve-se quem puder e sebo nas canelas.


De repente, todo mundo começou pular por sobre as cadeiras e correr em direção à porta de entrada do cinema, para descobrir que tudo aquilo não passava de uma forte chuva de granizo. Como o telhado do cinema era de zinco, o impacto das pequenas pedras de granizo faziam aquele barulhão ensurdecedor, que assustou todo mundo. E acredite, muitos meninos e meninas preferiram ir embora mesmo debaixo de chuva, antes do filme terminar.


Mas essa fama de lugar assombrado permaneceu por muito tempo. Outra passagem interessante foi a noite que durante uma das famosas “Sessões do Rapa”, quando apareceu um fantasma no cinema. O filme transcorria às mil maravilhas, todo mundo de olho grudado na tela, prestando atenção no desenrolar da trama, quando de repente, aconteceu aquele estrondo ensurdecedor que depois continuou, parecendo correntes rangendo e se arrastando pelo chão. Claro que todo mundo saiu correndo, principalmente porque nessas horas, sempre aparece um engraçadinho que bota mais pimenta no molho e a boca no mundo. “Olha lá o fantasma!”     


Quando as luzes se acenderam, tudo ficou esclarecido. O temido fantasma que assustou a plateia, era o coitado do ajudante do operador do projetor e que por descuido, no escuro,deixou cair uma das latas onde eram guardados os rolos de filmes. Como a cabine de projeção ficava no mesanino, que muitos gostavam de chamar de “Pullman”, um tipo de reservado especial, onde haviam algumas dezenas de poltronas e era o local preferido dos casais enamorados, a tal lata de filmes por um desses caprichos da vida, acabou rolando pela escadaria abaixo, fazendo uma barulhão danado.


Aí o coitado do Aldo Baianinho, o ajudante, no desespero, tentando consertar as coisas, saiu da cabine no escuro correndo escada abaixo atrás da lata e de um momento para outro, bastou o povo ver sua sombra de relance, projetada contra a parede lateral, para ele virar o tal fantasma do cinema. Diziam até, que era um fantasma corcunda. Impressionante. Não vai faltar oportunidade para voltar a lembrar dos bons e velhos tempos do Cine Fernandópolis e do Cine Santa Rita. Tem histórias e estórias que não acabam mais. Prometo que ainda volto ao assunto. Semana que vem tem mais. Até lá.



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