Depois de quatro anos com o mesmo aparelho comprei um smartphone, ou telefone inteligente em tradução literal. Rendi-me aos apelos do consumismo.
Com o meu antigo celular eu conseguia fazer ligações e mandar mensagens, o que bastava. Depois aprendi – meus filhos me ensinaram – que podia fotografar e colocar nas redes sociais. Não foi uma tarefa fácil, mas com o tempo percebi que não era assim tão difícil. O problema era lembrar-me de carregar a bateria ou colocá-lo na bolsa e, o que é pior, achá-lo quando recebia uma ligação. Claro que isso sempre deixava o povo daqui de casa indignado. Enfim, quando eu já estava muito bem adaptada ao aparelho que me conectava ao mundo – pelo menos ao meu mundo: marido, filhos, amigos e parentes –, ele resolve “pifar”. Agora nova saga se anuncia: aprender a utilizar o novo equipamento.
Uma lembrança muito intensa, dos tempos em que a comunicação ainda era muito lenta comparada aos dias atuais, é a correspondência entre minha mãe e minha avó. Separadas por quase seiscentos quilômetros, num tempo em que telefone era artigo de luxo reservado apenas aos que podiam pagar por uma linha, semanalmente elas se revezavam no envio de notícias cotidianas.
Invariavelmente as missivas iniciavam da seguinte forma: “querida (mãe ou filha) recebi sua carta a qual passo a responder. Por aqui estamos todos com saúde, graças a Deus....”. Depois relatavam algum fato cotidiano ou alguma novidade e, também invariavelmente, terminavam com beijos, abraços, votos de saúde e novamente a benção de Deus. Com que alegria era recebida essa correspondência. A instalação do telefone em suas casas não extinguiu o hábito, apenas diminuiu a frequência.
Reprisando o passado, minha mãe e eu estamos separadas pela mesma distância, mas os tempos são outros. Não trocamos cartas, preferimos o telefone e os emails e às vezes o Skipe. Recentemente ela aprendeu a usar o Facebook. Quem sabe eu a convença e consiga fazer com que adquira o tal telefone inteligente e poderemos ampliar nossa rede de comunicação formando um grupo no Whatsapp e também fazer umas “selfies” e postar no Instagram.
É como atualmente me comunico com a minha filha. Ameniza a saudade e dá uma sensação de proximidade. Escrevemos poesias, ela me fala das suas descobertas com as novas leituras e com as aulas e os professores da faculdade. Trocamos fotos, confidências e profundas reflexões. E com isso vou me adaptando ao novo aparelho sem, contudo, perder a noção do que é essencial.
O domínio das novas tecnologias permite que encurtemos distâncias. Aproxima-nos das pessoas e do mundo. A contemporaneidade nos obriga a isso.
O que assusta é a banalização. Cada vez mais a tecnologia se torna “smart” e as pessoas cada vez mais “short”.