SERGIO PIVA

8 de abril

8 de abril

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 9 anos

A decepção é um remédio amargo. Se administrado via oral, quase indeglutível. Se injetável, sente-se a agulha penetrando profundamente, rasgando a pele, dividindo os músculos até atingira corrente sanguínea e tomar conta de todo o corpo.


Pior ainda, a decepção é sempre recíproca. Decepciona-se consigo mesmo, quase sempre sem razão,já que os seres humanos são dotados do livre arbítrio, assim, o fato de você querer que uma pessoa seja diferente, necessariamente não será, pois o querer depende dela.Decepcionamo-nos quando a mentira estrategicamente elaborada não mais se sustenta, uma vez que ela tem necessidade de cobrir-se como o hábito de uma freira ou, nesse caso, de uma falsa freira,para esconder seu verdadeiro corpo. No entanto, o que é habitual uma hora descuida-se, então um vento qualquer inesperado pode deixar ver mesmo que uma pequena parte do corpo da mentira que, por mínima que seja, é capaz de deixar perceber aquilo que se tentava ocultar.


E na reciprocidade, nada é mais chocante do que descobrir a verdade sobre si mesmo, com uma diferença:por mais que seja dolorida a decepção consigo mesmo, ela pode ser libertadora, seja pela oportunidade de conhecer-se melhor, seja por evitar-se uma frustração maior futura.


A mentira aprisiona o mentiroso em um mundo imaginário criado a partir de suas próprias mentiras. O escritor irlandês Jonathan Swiftdiz: “quem conta uma mentira raramente se apercebe do pesado fardo que toma sobre si; é que, para manter uma mentira, tem de inventar outras vinte”. 


Dessa forma,a coleção de mentiras é tão grande que o próprio mentiroso passa a acreditar nas suas mentiras como verdades. Os momentos soturnos que nos trazem as decepções podem ser uma oportunidade para uma auto reflexão profunda, não para arrepender-se da confiança e da doação presenteadas, mas tão somente para conhecermos um pouco mais da alma humana.


O aprendizado, na maior parte das vezes, é adquirido com a dor, embora exista a possibilidade de aprendermos na alegria. A diferença é que nos momentos de alegria só olhamos para fora e nos momentos de tristeza olhamos invariavelmente para dentro de nós.


Entretanto, é preciso, depois do olhar interior atento, da auto reflexão e de uma avaliação, o mais racional possível, utilizar o aprendizado adquirido. 


A banda Viper, na música intitulada“8 de abril”, em uma de suas estrofes, ilustra a decepção, em minha leitura, da seguinte forma: “A realidade veio me avisar/Tudo tem seu preço/Ela vai me cobrar”. E em outra, deixa o conselho: “Agora que eu olhei pra trás/Eu vou pegar outra estrada/As roupas que eu usava não me servem mais”. A vida é cheia de surpresas e os seres humanos de ingratidão. O importante é nos mantermos de pé para continuar a caminhada.




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