André Marcelo

Cuidados paliativos e morte

Cuidados paliativos e morte

Por André Marcelo Lima Pereira

Por André Marcelo Lima Pereira

Publicada há 9 anos

A maioria das pessoas preferiria evitar a morte; masse sabe que ela é inexorável. A evitação da morte,segundo Ribeiro (2008)1, está relacionada ao fato de que o ser humano sente a necessidade, nesse evento,de lidar com o desconhecido ou coma recusa de perder uma pessoa querida. 


Kübler-Ross (1998)2 acredita que a maior dificuldade de se enfrentar o momento da morte é que o indivíduo não se imagina chegando a um fim de sua própria vida. Outrora, seguindo a concepção histórica, a morte era mais afeita à esfera familiar, quando o moribundo passava seus últimos momentos perto das pessoas que amava – os quais lhe poderiam dar amparo emocional e dispensar-lhe carinho. 


Na contemporaneidade, porém, costuma-se nascer e morrer dentro de hospitais, e os momentos da morte se tornam invisíveis para os familiares. Em hospital, tem-se que o paciente parece despir-se de seu ego, de sua pessoalidade, distante dos familiares e objetos que organizaram toda a sua vida e significaram para sua existência. Longe do conforto de casa, dos objetos pessoais, da alimentação costumeira, das visitas e vozes de amigos e familiares etc., tem como companheiros, ao seu lado, aparelhos, tubos, agulhas que mantêm seu corpo em funcionamento, além das dores e sofrimento.


Tudo suportado sozinho, sem os olhares, as vozes ou o amparo da família e dos amigos. Se o hospital faculta o prolongamento da vida, não ajuda, todavia,o doente a morrer (MARANHÃO,1987)3. Se as dores do parto têm sentido, porque uma vida nova está nascendo (ALVES, 2006)4, as dores da morte, amenizadas por sedativos ou tendo seu progresso controlado por aparelhos, apontam para o imprevisível, o ignoto, a falta de perspectiva de vida – um vazio para o moribundo. 


Nesse momento é que entra a equipe dos Cuidados Paliativos. Os Cuidados Paliativos direcionam-se a pessoas enfermas que estão à beira da morte. A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2002, recomendou que os cuidados paliativos não se restringissem apenas para os casos de câncer, mas também se expandissem para todos os pacientes com doenças agressivas, com risco de vida (CREMESP, 2008) 5ou terminais. 


Em outras palavras,a sugestão é que eles reunissem cuidados específicos para pacientes com poucos recursos ou poucas expectativas de tratamento e cura. Para a OMS, os Cuidados Paliativos remetem a uma abordagem humana, que objetiva melhorar a qualidade de vida de doentes terminais, com prognóstico limitado, e auxiliar suas famílias por meio da prevenção e alívio do sofrimento, não só da dor física, mas também de “dores” psicossociais e espirituais.


Assim concebidos, os Cuidados Paliativos voltam-se à melhoria das condições de vida de todos os pacientes com doenças progressivas e irreversíveis, como as degenerativas, incapacitantes e fatais, além de buscarem assistir ou confortar familiares desses pacientes. Eles devem “proporcionar não apenas o alívio, mas a prevenção de um sintoma ou situação de crise” (CREMESP,2008, p.17). 


Os Cuidados Paliativos se constituem na atenção ao outro, na afirmação de seu bem-estar mesmo que temporário, em busca de amenizar uma situação irreversível (PESSINI, 2006)6. Nesse sentido, cuidar significa possibilitar um tempo ao outro, dedicar atenção para que sua situação se torne menos dolorosa: cuidar, aqui,não é buscar a cura, sobre a qual tem prioridade, mas proporcionar ao paciente sem possibilidade terapêutica de cura um pouco mais de qualidade de vida, amparo, assistência em suas dores, sem menosprezar um determinado tratamento. 


Os Cuidados Paliativos, pois, consideram os aspectos existenciais do paciente e de sua família, de tal forma que a vivência de uma doença sem cura se torne singular.


1.  RIBEIRO, E. E. Tanatologia: vida e finitude.Rio de Janeiro: Unati, 2008.

2.  KÜBLER-ROSS, E. A roda da vida: memórias do viver e do morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 1998.

3.  MARANHÃO, J. L. S. O que é morte. São Paulo: Brasiliense, 1987.

4.  ALVES, R. Sobre a morte e o morrer. In:FIGUEIREDO, M. T. A. (Org.). Coletânea de textos sobre cuidados paliativos e tanatologia.São Paulo: Unifesp, 2006

5.  CREMESP – Conselho Regional de Medicinado Estado de Minas Gerais. Cuidado paliativo. Coordenação Institucional de Reinaldo Ayer de Oliveira. São Paulo: Cremesp, 2008.

6.  PESSINI, L. Bioética e cuidados paliativos:alguns desafios do cotidiano aos grandes dilemas. In: PIMENTA, C. A. M.; MOTA, D.D. C. F.; CRUZ, D. A. L. M. (Org.). Dor e cuidados paliativos: enfermagem, medicina epsicologia. Barueri: Manole, 2006. P. 45-66.




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