A área de ação de um psicólogo organizacional é ampla. Sua atuação se estende desde empresas privadas a instituições, ONGs, governo etc. A ele cabe desenvolver estratégias para melhorar o ambiente de trabalho em favor da organização, da mesma forma que se deve preocupar com a saúde mental dos trabalhadores; é importante lembrar, porém, que não cabe ao psicólogo organizacional realizar atendimento terapêutico: cabe-lhe, sim, entender os fenômenos relacionados à vida do sujeito e seu contexto, envolvendo o colaborador e a organização, sob a égide da ética e da moral.
Boff1 esclarece os conceitos de ética e de moral. Para ele, a ética surge com a filosofia e considera princípios e valores que sinalizam os comportamentos de pessoas e sociedades, os “estilos de relacionamento, tensos e competitivos ou harmoniosos e cooperativos”; é considerada ética a pessoa de caráter e boa índole, cuja orientação se pauta em princípios e concepções, geralmente oriundos da formação do indivíduo. Moral refere a prática real relacionada a costumes, hábitos e valores aceitos socialmente. Boff lembra que a moral capitalista, cruelmente, preconiza “empregar menos gente possível, pagar menos salários e impostos e explorar melhor a natureza” – portanto, aparentemente contrária à ética, já que essa moral produz caracteres conflitivos na sociedade. Afinal, essa concepção ética é benfazeja à vida? Idealmente, a resposta é não – para Boff, “eis a razão da grave crise atual”.
Assim, a questão ética é de crucial importância para o psicólogo organizacional, visto que as sociedades, ao longo da história, passaram a ser preocupação eminente para as empresas com o advento do capitalismo. Podem-se elencar algumas razões para que uma empresa seja ética: custos menores, avaliação do desempenho de sua estrutura, a legitimidade moral para que os colaboradores exerçam um comportamento ético, o respeito dos parceiros comerciais, a efetivação da responsabilidade social da organização. Ao adotar um código de ética a ser praticado, a empresa busca nortear práticas organizacionais, ou seja, refletir sobre costumes ou mores, isto é, sobre a prática usual, os costumes vigentes nas empresas. Portanto, a ética empresarial se define pelas práticas organizacionais baseadas em valores morais, tais como a qualidade no trabalho, o respeito no trato interpessoal, igualdade de oportunidades para todos e tratamento não discriminatório, respeito a prazos e compromissos, confiabilidade e credibilidade, estabilidade de normas e objetivos, capacitação para o autodesenvolvimento, comprometimento com normas sociais e integração com a comunidade.
Uma empresa ética pauta-se, então, por um código de ética, por políticas claras e objetivas, comunicação, treinamentos, equanimidade de recompensas e sanções, atenção a climas éticos que se expressam por percepções compartilhadas pelos membros da organização, relativas a critérios estabelecidos que apontam para uma cultura organizacional.
Nessa direção, Camacho2 imbui o psicólogo organizacional de um novo papel: o de profissional de Recursos Humanos (RH) como necessidade de uma visão ampla dos processos organizacionais que lhe possibilite sugerir políticas e estratégias de intervenção. Em outras palavras, é de competência do psicólogo organizacional a articulação entre colaboradores e organização, visando sempre ao bem-estar do colaborador em consonância com os objetivos da empresa.
Silva3 corrobora esse conceito quando aponta que o trabalho do psicólogo organizacional não pode estar descontextualizado do ambiente da organização. Ele deve atuar como um profissional de RH, desenvolver atividades que supram as necessidades da organização e a auxilie a se tornar competitiva e a sobreviver em um mercado globalizado, em que o capital humano e a qualidade total são os pontos chave para o sucesso organizacional.
Dessa forma, o psicólogo organizacional se aproxima das instâncias decisórias da organização: ele não se caracteriza como “reprodutor de objetivos técnicos”4 ou da hierarquia da organização, mas explora a dimensão humana do trabalhador, suas expectativas, posto que lida com o comportamento humano (tanto na sua dimensão individual quanto social) – o que o credencia ao manejo de técnicas de investigação dos problemas psicossociais inevitáveis em quaisquer contextos de trabalho. Assim, a ética é fundamental na atuação do psicólogo organizacional e deve estar presente em tudo o que ele faz, independentemente do local onde atua ou de funções outras para as quais contribua com seu trabalho.
1 BOFF, Leonardo. (2003). Ética e moral. Disponível em: <http://www.leonardoboff.com/site/vista/2003/jul04.htm>. Acesso em: 02 mar. 2016.
2 CAMACHO, J. Psicologia organizacional. São Paulo : EPU, 1984.
3 SILVA, R. M. O papel do psicólogo organizacional na gestão da qualidade total. (2005). Disponível em: <http://www.via6.com/topico.php?tid=3241>. Acesso em: 01 mar. 2016.
4 ZANELLI, J. C. Formação e atuação em psicologia organizacional. Psicologia — ciência e profissão. Conselho Federal de Psicologia, ano 6, n. 1, 1986.
Por André Marcelo Lima Pereira
Psicólogo