O dia vinte e um de abril é marcante na história oficial do Brasil. Para mim serve apenas como data importantíssima na medida em que nasceu meu amado pai, se estivesse vivo, completaria noventa e cinco anos. Qual a razão do feriado?
Antes de tudo, quero salientar que não defendo sua extinção. Ao contrário, quanto mais existirem, melhor. Essa data foi inventada. Aprendemos nas aulas de História que foi o dia da execução de nosso “Mártir da Independência”.
Acostumamo-nos a ver uma reprodução belíssima, pintada por Vitor Meireles, na qual o tal mártir é retratado com barbas e cabelos longos, com um ar de sofrimento e aceitação, com a corda ao pescoço. Num primeiro olhar somos tentados a vê-lo parecido com as imagens que retratam Cristo. (Será?) Um trabalho iconográfico nos permite constatar a existência de duas possíveis imagens de Tiradentes.
Além do retrato de Meireles, há outra, onde aparece como alferes, quer dizer, um soldado do rei: cabelos curtos, presos a um lacinho esquisito – moda à época –, sem barba, pois, era vedada a utilização dessas na função desempenhada por ele. Para ganhar a vida, além de soldado, Joaquim José da Silva Xavier, trabalhava como boticário, isto é, no manuseio de drogas, cuja função o obrigava a aparar barbas e cabelos, além do uso do boticão, aparelho utilizado então para “arrancar dentes”. Claro, a sangue frio.
Não existia anestesia. Desse último ofício surgiu seu apelido. Tiradentes envolveu-se na chamada Inconfidência ou Conjuração Mineira acreditando nos ideias liberais e iluministas. Todavia, pobre e de pouquíssima instrução, não sabia ler em outras línguas, ou seja, estava, na prática, alheio às discussões.
O movimento citado tinha interesses particulares: a elite aurífera das Minas Gerais estava indignada com as taxações impostas pela coroa portuguesa. Seu bolso – parte mais sensível das elites – exigiu mudanças: uma ruptura com Portugal.
Transformar o Brasil numa república. Apesar do lema singelo, “Liberdade ainda que tardia”, defendiam uma “escravidão branda”. Lindo não? Ao invés de chicotear, dê “beijinhos”. Porém, o infeliz continuará escravo. Tudo sob a égide da liberdade. Dá para levar a sério? Um dos endinheirados inconfidentes, Joaquim Silvério dos Reis, devendo fortunas em impostos, como os demais, recebeu uma proposta do governador de Barbacena, representante do rei: “ – Entrega todo mundo. Sua dívida será perdoada.” Ao que ele respondeu: “ – Firmão! É nois”. Entregou.
Assim começava o Brasil real. Podre. Da delação, da traição, da negociata, da politicalha. Tiradentes, o único pobre, foi pego “para exemplo”. Os playboys inconfidentes foram condenados ao exílio na Europa. (Que coisa terrível!) O único sério, Claudio Manuel da Costa, foi preso e assassinado. Muito embora aprendêssemos que cometeu suicídio. E o Tiradentes? Foi enforcado? Não. Morreu de “morte morrida” na África. Era pobre. E a História? Pois é: O professor José Murilo de Carvalho pesquisou a sério essa passagem da vida brasileira.
Transcreveu-a em sua obra “Formação das Almas”. Nos mostra que nos primeiros anos da república – também um golpe de estado cujo poder foi entregue a um monarquista –, deliberou-se que: “precisávamos de um herói”. A nefasta influência do positivismo nos legou essa infâmia. O primeiro nome foi D. Pedro I. Não rolou. Biscateiro, matou a patroa Leopoldina, depois de desferir-lhe um pontapé e jogá-la escada abaixo, grávida. Morreu sifilítico. Apesar de constar oficialmente tuberculose. Afinal, é mais chique.
Segunda tentativa: Princesa Isabel. “Viajou grandão!” Uma mulher herói? “N.F.” (Perguntem o significado ao Millôr). Sobrou quem? Tiradentes. Chama o Vitor. Pinta um “cara” cabeludão, barbudão, com um ar meio blasé, meio triste, com “jeitão” de Cristo. Cria-se o mito. Vinte e um de abril é transformado em feriado nacional. Inventa-se a historinha do enforcamento. Pronto. Estou louco? Veja a reprodução da tela do Cristo do genial Andrea Mantegna.
Gênio da renascença itálica. Pois bem, o mito foi recriado no último domingo: ladrões, corruptos, bandidos, bradando a honestidade e o combate à corrupção. Até torturador e assassino foi reverenciado. Uma chuva de sandices e asneiras foi desferida na cara de um povo idiotizado e “sedento por heróis”. Heróis de mentira cuja única intenção é a de resguardar o próprio bolso e sua insana sede de poder. Mais uma vez, pegaram alguém para exemplo. A fim de execrá-la e enforcá-la, em nome da paz e da ordem. Mais cedo ou mais tarde, a história desmascarará esses vermes!