Outro dia, alguns amigos - profissionais ligados à área da Construção Civil -revelaram-me que, atualmente, está fora de moda construir sala de visitas nas residências modernas. Curioso, perguntei a eles a causa desse detalhe arquitetônico. A resposta foi: “hoje em dia, raramente as pessoas recebem visitas em casa, por isso é desnecessária a construção desse ambiente”.
Raramente as pessoas recebem visitas em casa nos dias de hoje! Confesso que fiquei impressionado ao me atentar a esse fato. Quanta diferença dos tempos passados não tão distantes assim! A sala de visitas era o cômodo mais bem decorado da casa, justamente para impressionar os visitantes que recebíamos, frequentemente, com muita satisfação.
Isso é um sinal emblemático dos tempos atuais, nos quais ninguém tem tempo para nada por conta da correria do dia a dia e das jornadas excessivas de trabalho que consomem toda a nossa disponibilidade, de modo a comprometera atenção que deveríamos destinar à nossa família, aos amigos e parentes em geral.
Não faz tanto tempo assim que as reuniões e encontros entre amigos, vizinhos e familiares eram mais frequentes. Quem não se lembra dos vizinhos que, à noite,passavam horas conversando nas calçadas, sentados naquelas cadeiras de corda, colocando a prosa e as novidades em dia. Aliás, vizinhos nem precisavam apertar a campainha para adentrarem em nossas casas, muito menos marcar dia e horário de visitas. Na verdade, eles nem eram considerados visitas, mas amigos íntimos, pessoas da casa, “quase da família”. Atualmente, é muito comum as pessoas não conhecerem seus vizinhos, desconhecerem seus nomes e, quando se cruzam na rua, cumprimentarem-se fria e protocolarmente.
Era comum integrantes de uma família e amigos próximos planejarem a preparação de pamonhas como desculpa para se reunirem. E a escolha desse tradicional quitute não era por acaso, pois, devido ao trabalho demandado em seu preparo, as pessoas podiam ficar mais tempo reunidas, passando tardes inteiras conversando, contando piadas e divertindo-se.Outro encontro tradicional era a realização dos terços no bairro. A vizinhançase alternava na organização do evento, disponibilizando suas casas em um esquema de revezamento. Ao final de cada terço, eram servidos chá, biscoitos de polvilho e pãozinho de minuto entre os fiéis.
Era sagrado, em datas festivas, como Natal, Páscoa ou Réveillon, por exemplo, as famílias se reunirem nas casas dos patriarcas, geralmente os avós. Nessas ocasiões, todos se confraternizavam, estreitando os laços familiares. Esse tipo de reunião está se tornandoraro, mesmo porqueas famílias estão cada vez menores e seus integrantes mais dispersos, vivendo em localidades distantes, inclusive no exterior. Infelizmente, não somente o tamanho das famílias brasileiras diminuiu nas últimas décadas, mas também a união entre seus componentes.
Quando nem sonhávamos com celulares, tablets e smarthphones, as pessoas se reuniam em torno das mesas de bares e restaurantes e prestavam atenção umas nas outras, revezando-se na narração de histórias, na digressão de linhas de raciocínio, contando piadas ou defendendo seus pontos de vista acerca dos mais variados assuntos, tudo com muita descontração. Atualmente, é comum a deprimente cena na qual os amigos, em torno de uma mesa, postam-se de cabeças baixas, quase que hipnotizados pelo visor de seus aparelhos celulares, alheios aos seus interlocutores e sem dar a mínima atenção a eles. Os corpos estão presentes ali, mas o pensamento e a alma estão longe, mergulhados nas páginas da internet em alguma rede social da moda. Triste realidade!
O ser humano é um ser sociável por natureza, por isso, a convivência com as pessoasé necessária para manter o bem-estar psíquico e, consequentemente,a saúde geral. Necessitamos de atenção e de sermos atenciosos, de ouvir e contar histórias, dividir os problemas e os sucessos e de estar junto de nossos entes queridos. Precisamos prestar assistência, mas também de sermos assistidos. A nossa caminhada não pode e não deve ser trilhada a sós. Portanto, que bom seria se nossos vizinhos voltassem a colocar as cadeiras de corda nas calçadas, que as pessoas desligassem seus celulares nas mesas dos bares e restaurantes e que a inclusão de salas de visitas às residências modernas entrasse, novamente, em moda na Construção Civil.