D.R., afrodescendente, então com 29 anos, no ano de 2015, estudante do curso de Medicina da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), no município de Santo Antônio de Jesus, estado da Bahia, estava ao lado de uma senhora, em uma agência bancária, que lhe perguntou: “Onde você estuda? D.R. respondeu: na UFRB. Você faz História? Indagoua senhora. Não, faço Medicina, disse D.R. Diante dessa resposta, a senhora emendou: Minha nora também faz Medicina, mas ela tem os cabelos loiros, olhos claros e é bem branquinha”.
Desnecessário transcrever o conteúdo total dessa conversa, pois somente esse trecho deixa evidente que o preconceito é uma das vertentes mais comuns do racismo. Nas próprias palavras da estudante, a impressão que ficou desse episódio é que pessoas de pele escura não se parecem com médicos; é como se existissem aparências físicas pré-estabelecidas para cada tipo de profissão em nosso país. “Engraçado e triste, mas ao ouvir a declaração de que seres humanos, por serem negros, não têm cara de médico, doeu e eu chorei”, desabafou D.R. em uma rede social na internet, na época.
Da perspectiva da empatia, que é o sentimento no qual nos colocamos no lugar do outro, consegue-se imaginar a dor e a humilhação sentida por essa estudante de Medicina, julgada pela cor de sua pele, diante de um sentimento arrogante, mesquinho e deletério que é o racismo. Nesse, e em muitos outros casos que ocorrem diariamente, percebe-se que o racismo ainda é uma prática arraigada nas atitudes e no pensamento de muitos brasileiros. Um mal que criou raízes profundas a partir do sistema escravocrata, durante mais de 300 anos e permanece, atualmente, em pleno século 21, no seio de nossa sociedade.
Apesar de a Ciência já ter provado que não existem raças entre seres humanos, o que já é suficiente para considerar o racismo algo sem sentido, esse não atinge somente pessoas negras, mas também, dependendo da localidade geográficae do contexto social, os asiáticos, índios, mulatos e até brancos, como aconteceu com os judeus na Alemanha nazista. No entanto, em nosso país, os afrodescendentes são as maiores vítimas. É importante destacar que, quando provada, a prática racista se constitui em crime inafiançável, com pena de reclusão. Além disso, o racismo no Brasil é um verdadeiro contrassenso, pois a população brasileira é composta, em sua maioria (54%), por negros ou pardos, sendo que a cada dez pessoas três são mulheres negras, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O racismo também mostra a sua face injusta no mercado de trabalho, eliminando a tão badalada meritocracia que alguns acreditam ser a regra que permeia as conquistas profissionaisdas pessoas no país. Um exemplo é a ocupação de afrodescendentes nas grandes corporações, especialmente em postos de trabalho qualificado, que ainda apresenta resistência; e não vale mais a alegação de que os negros não possuem qualificação, pois, de acordo com um estudo publicado pelo IBGE, nos últimos 10 anos, quase triplicou o número de negros e negras no Ensino Superior. Em 22 de março de 2016, uma reportagem publicada na revista semanal “Carta Capital” descreveu o seguinte caso: “Recentemente,uma jovem negra relatou as dificuldades para conquistar um cargo que exigia maior qualificação em uma empresa. Aquela jovem possuía um currículo invejável: fluente em três idiomas, pós-graduada na área de negócios e com experiência em cargo de chefia, ouviu da consultora de RH (Recursos Humanos) que o seu perfil nas redes profissionais era muito “descolado” (cabelo crespo e roupa colorida) e que roupas mais sóbrias combinadas com cabelo alisado poderiam ser mais apropriadas”. Como se vê, além de injustas, as alegações de fundo racista, que fecham as portas do mercado de trabalho para os afrodescendentes, mesmo que qualificados para o cargo, beiram o ridículo.
Apesar de a abolição da escravidão ter ocorrido há quase 130 anos; da Lei 7.716, que define racismo como crime no Brasil, ter sido promulgada há 28 anos;da criação do dia da consciência negra, comemorado no dia 20 de novembro, ter ocorrido há mais de 13 anos eda implantação das políticas afirmativas há mais de 10 anos, a prática racista contra os afrodescendentes ainda persiste no país. Por isso, já passou da hora de enfrentar esse problema de frente, sem rodeios e sem demagogia, apostando nos debates travados nas várias representações da sociedade, nas campanhas de conscientização, na denúncia de casos às autoridades e na consequente aplicação da lei, na educação das novas gerações, entre outras medidas, no sentido de se valorizar a diversidade racial em nosso país, eliminando essa vergonha secular que é o racismo. Afinal de contas, é ridículo imaginar que o caráter e o mérito de uma pessoa se relacionam com a quantidade de melanina presente em sua pele.