Sempre quis inventar alguma coisa. Desde adolescente, enquanto caminhava ou andava de bicicleta, meu pensamento viaja longe buscando criar algo que ainda não existia ou que pudesse ser transformado.
Lembro-me ainda com clareza que, em uma das minhas andanças pelas ruas da cidade, quando estava de bicicleta, enfrentei uma subida um pouco íngreme no caminho que percorria todos os dias até o trabalho. Foi quando pensei em uma maneira de aliviar o esforço, pois havia vários tipos de catracas para bicicletas e as maiores ajudavam a diminuir a força para se alcançar o topo de uma ladeira.
Faltava, assim, descobrir uma forma de colocar duas catracas em uma bicicleta, uma grande para as subidas e outra de tamanho menor para os lugares planos.
Até esse ponto, tudo bem, minha invenção era genial. Mas precisa achar um jeito de passar a corrente de uma catraca para outra. Meu pensamento fixou-se nessa tentativa por muitos quarteirões do meu itinerário. Eis que, de repente, veio-me à memória a lembrança (como se ela fosse uma figurinha do álbum da copa que tivesse sido colada bem no meio da minha testa por um forte tapa de uma mão enorme) de que a bicicleta com marchas já existia. Que pena. Estava quase em vias de patentear meu invento.
Nunca desistia de querer inventar algo, porém essa tarefa ficava cada vez mais difícil, pois tudo em que pensava já havia sido inventado. Mas essas tentativas me tornaram mais observador e admirador de certas invenções e inovações inseridas em nosso cotidiano e que, por isso, quase sempre passam despercebidas, como a impressora para computadores. Acho fantástica essa invenção. Transformar códigos em imagens concretas. Mais fantásticas ainda as impressoras 3D, já disponíveis no mercado para qualquer pessoa, claro, que tenha dinheiro para adquiri-las, já que o preço ainda é salgado.
Tanto inventar como inovar (palavra da vez nos dias atuais) não é uma tarefa das mais fáceis. Tampouco impossível, dado as inúmeras invenções e inovações existentes ao nosso redor. A Inovação, ou seja, a implementação de ideias criativas dentro de um contexto específico, nem sempre é sinônimo de criação de algo novo. Inovar pode ser melhorar aquilo que já existe, seja um produto, serviço, processo ou arranjos de organização. A impressora 3D é um claro exemplo de inovação. Será que o contrário também existe, uma inovação às avessas?
Minhas observações dizem que sim, existe. Vejamos um exemplo do nosso dia a dia: o guarda-noturno. Estou falando daquele que faz a vigilância das residências, toma conta da nossa rua, como costumam dizer.
Uma invenção interessante de um serviço necessário. Não sei quando foi criado. Imagino que há muito tempo. Recordo-me desde criança da sua existência. Também da existência de um acessório que é a marca registrada dos guardas-noturnos: o apito.
Em minha época de infância, o apito tinha certa serventia, pois era um tempo (quando a gente usa essas expressões, significa que não somos mais tão jovens) em que ladrão tinha medo de guarda-noturno. Acredito que o apito era um aviso para dizer “estou aqui, não se atrevam a vir”. Hoje, quando usam apito, não vejo muita razão nesse acessório, que avisa ao meliante onde precisamente está o guarda, dando tempo para que aquele possa dar andamento ao seu intento, já que o vigia não está próximo e, pelos apitos, sabe quando tempo demorará a chegar.
Até aqui quase tudo bem. Mas não é que inovaram o guarda-noturno. Criaram um guarda que anda de moto, que realiza as rondas com mais rapidez e maior agilidade. E mais, inovaram o apito. Deus do céu! Substituíram-no por um sinal sonoro, uma espécie de buzina irritante. Se a segunda função do apito já era a de não deixar a gente dormir, avisar que aquele a quem devemos a mensalidade estava ali presente, esperando o momento da cobrança, o sinal sonoro vai além.
Ele é capaz de avisar a quilômetros onde está o guarda-noturno e de não deixar,
em hipótese alguma, a gente repousar tranquilamente, porque aquela buzina emite um som agudo tão forte que consegue ir, diretamente, lá no fundo do nosso cérebro e gritar bem alto “olha o guarda”. E eu nem sou ladrão. Afora o fato de que, hoje, bandido não tem medo de polícia, que dirá de guarda-noturno.
Espero que as próximas inovações de serviços sejam mesmo evoluções, porque fico imaginando como seria a “desinovação” daquela broca do dentista, aquele famoso “motorzinho”. Deus me livre.