Por diversas vezes, declarei meu amor pelo cinema.
Venho novamente reverenciá-lo.
Sexta-feira passada, eu e a Jacqueline, fomos à São Paulo. Tínhamos um compromisso importante: no sábado conheceríamos a nova residência de nossa sobrinha Ligia e de seu marido Renato. Depois, festa na casa de meu irmão Zé Roberto e minha cunhada Genira. No domingo, pela manhã, iríamos à Sorocaba visitar primos e Tios, muito queridos.
Como chegamos na sexta à tarde – é verdade que houve um infernal congestionamento de duas horas na Marginal -, passamos pela casa de minha sogra e visitamos nossa sobrinha-neta.
Antes de irmos para casa de meu irmão, houve uma sugestão da Jacqueline: irmos ao cinema.
Lógico. Fazia tempo que não assistíamos a um filme em São Paulo.
Sugestão de minha mulher: Com Amor, Van Gogh. Desenho de animação.
Assumo, fiquei cético. Todavia, confio na inteligência, na sensibilidade e no bom gosto da Jacqueline.
Fomos.
Arrebatador! Um dos maiores filmes que já assisti.
Inovador. Transforma em linguagem pictórica, desenho de animação, uma história que poderia, simplesmente, ser dramatizada e filmada por atores. No entanto, o Plus, é a transição para o desenho com o acréscimo desse ser enriquecido com a estética, a trama, a dramaticidade do universo inacreditavelmente belo e invulgar do genial pintor holandês. Cada quadro do desenho, cada plano é construído a partir de uma tela de Van Gogh.
Suas cores, carregadas de laranja, amarelo, com a sobriedade e o drama do azul, compõe um universo próprio e único em toda história da pintura.
A trama do filme gira em torno dos últimos dias do pintor e as razões pelas quais, teria cometido suicídio.
Cabe ao filho de seu grande amigo em Arles- cidade no sul da França, onde Vincent Van Gogh havia fixado-se e mais tarde convidara seu suposto amigo Paul Gauguin para produzirem juntos -, a responsabilidade de desvendar o drama.
A relação de Van Gogh e Gauguin é um caso à parte.
Gauguin era um homem egoísta e egocêntrico. Muito embora fosse um grande pintor, não se preocupava com os outros, apenas consigo e sua arte. Mantinha com Van Gogh uma relação doentia: sabia que o holandês era genial, todavia, sentia-se enciumado e invejava sua capacidade de combinar cores.
Por sua vez, Vincent admirava, venerava Gauguin, a ponto de sentir-se menor que o artista francês. Mantinha com ele uma relação tóxica, de admiração e dependência.
Van Gogh havia se instalado em Arles. Passou a produzir. Convidou Gauguin para acompanha-lo. O francês aceitou.
Vincent havia se servido dos serviços profissionais de uma prostituta. Em sua doentia timidez, em sua imensa dificuldade de conviver com outro, supôs, estar apaixonado e ser correspondido pela moça. Informou a Gauguin de sua “relação”.
Sem pensar duas vezes, Gauguin se envolveu com a moça e contou a Van Gogh. Esse, transtornado, entregou a prostituta uma carta, na qual dizia: “- Já que ficou com meu coração, então, fique com um pedaço de meu corpo”.
Entregou-lhe uma de suas orelhas. Para, em seguida, produzir um autorretrato, sem a mesma.
No filme, rapidamente, é tratada a partida de Gauguin da cidade de Arles.
O jovem deixa Arles, rumo a Paris, em busca de respostas.
Vai a outra cidade no interior da França, a procura do Doutor Gachet, a fim de elucidar o problema.
Há ainda a relação entre Vincent e seu irmão Theo, seu mecenas, doentia e de devoção. Theo sabia da genialidade do outro.
Se houve suicídio ou assassinato, não importa. O pior ocorreu: a vida de um dos maiores nomes da pintura de todos os tempos foi abreviada.
No entanto, a produção de Vincent Van Gogh legou à posteridade um primor de sensibilidade e arrebatamento perenes.
Poderia ter vivido mais? Sem me ater ao que escrevera na semana anterior, deixo a Fernando Pessoa a resposta: “- Morrem cedo àqueles a quem os Deuses amam”.