Recente noticia publicada na Folha de São Paulo relata que algumas faculdades estão recorrendo a práticas, até pouco tempo, incomuns em cursos de graduação: reunião de pais e boletins para acompanhamento de frequência e notas. Ainda segundo a reportagem, as instituições alegam que os alunos têm uma autonomia limitada e repertório incipiente, geralmente com pais superprotetores de “uma geração mimada”.
O Zé Renato, certa feita, também discorreu sobre o tema e citou o pensador Jean Piaget. Gostaria de elucidar alguns elementos básicos de sua concepção para que possamos refletir um pouco mais sobre o assunto.
O suíço Jean Piaget, um dos pioneiros a formular uma teoria de como o ser humano aprende,a partir da observação de seus próprios filhos e de outras crianças, concluiu que estas não pensam como os adultos, que valores morais são construídos a partir da interação comdiversos contextos sociais e que éna convivência cotidiana com outros tantos sujeitos que elas irão construir seus valores, princípios e normas. São necessáriostempo e estímulos, que ele chamou de interações, para que ocorram processos de organização interna e adaptação, denominadosassimilação e acomodação.
Esta concepção recebeu o nome de “epistemologia genética” eparte do principio que o ser humano, que nasce completamente dependente, através de interações sociais passa por etapas de descentração –de si mesmo e do outro – para assumir cada vez mais atitudes, comportamentos e posicionamentos independentes e responsáveis.Para Piaget, o homem não é social da mesma maneira aos seis meses ou aos vinte anos. A socialização da inteligência inicia-se a partir da aquisição da linguagem.
Ele propõe quatro estágios no desenvolvimento: sensório-motor (a inteligência é essencialmente individual, não há socialização propriamente dita); pré-operatório (trocas intelectuais limitadas pelo pensamento egocêntrico – centrado no eu –, não conseguem se colocar no ponto de vista do outro e não têm autonomia para agir ou pensar); operatório-concreto (conseguem efetuar trocas intelectuais, forma-se a “personalidade” – o indivíduo se submete voluntariamente às normas de reciprocidade e universalidade –); e finalmente, operatório formal (consegue relacionar-se com seus semelhantes realizando trocas em cooperação). Para Piaget aformação da personalidade, que ele delimita como o período da adolescência, é o ponto mais refinado da socialização: o eu renuncia a si mesmo para inserir seu ponto de vista entre os outros, em oposição ao egocentrismo, em que a criança elege o próprio pensamento como absoluto.
Em seu livro “O julgamento moral na criança” (1932), propõe que o desenvolvimento moral se dá em três etapas: anomia (ausência de regras), heteronomia (regras como algo imutável e ao mesmo tempo não elaboradas pela consciência e não entendidas a partir de sua função social) e autonomia (o respeito às regras é visto como acordo mútuo em que cada jogador vê-se como possível “legislador”). Divide as relações sociais entre os indivíduos em duas categorias: a coação (relação assimétrica, derivada da heteronomia e contraditória ao desenvolvimento intelectual) e a cooperação (relação constituída por iguais, regida pela reciprocidade, que envolve acordos e exige descentração para compreensão do ponto de vista alheio).
Segundo Yves de La Taille,especialista em Piaget, o individuo coagido tem pouca participação racional na produção, conservação e divulgação de ideias e limita-se a reproduzir e divulgar o que lhe impuseram. Não existe dialogo verdadeiro, uma vez que o individuocoagido deve limitar-se a ouvir e repetir o que lhe dizem,basta aceitaras “verdades” impostas sem esforço para verificar a partir de que perspectivas elas foram elaboradas, o que o leva distorcer o que lhe foi imposto por real falta de compreensão. A coerção, além de empobrecer as relações representa um freio ao desenvolvimento da inteligência, reforça o egocentrismo impossibilitando o desenvolvimento das operações mentais, uma vez que esse somente ocorre se representar uma necessidade sentida pelo individuo. As relações de cooperação, ao contrário, vão pedir e possibilitar esse desenvolvimento, pois pressupõe a coordenação das operações de dois ou mais sujeitos provocando o diálogo, a troca de pontos de vista, controle mutuo de argumentos e provas e representa o mais alto nível de socialização. Ou seja, a cooperação, com vista à autonomiaé um método,é a possibilidade para se chegar a verdades.Apesar da coação ser uma relação obrigatória e necessária na socialização da criança ela não pode e, portanto, não deve ser a única.
Para Piaget, ser coercitivo ou cooperativo é, antes de mais nada, uma atitude moral. Segundo De La Taille, “...o individuo deve querer ser cooperativo. Podemos perfeitamente conceber que alguém com todas as condições intelectuais para ser cooperativo resolva não o ser porque o poder da coação lhe interessa de alguma forma.... o desenvolvimento cognitivo é condição necessária ao pleno exercício da cooperação, mas não condição suficiente, pois uma postura ética deverá completar o quadro.” Para ele a teoria de Piaget é uma grande defesa do ideal democrático e o resgate da dimensão ética e política em defesa da igualdade, da liberdade e da democracia. “Em uma palavra, o valor dos direitos humanos”.
O currículo da educação básica no Brasil tem como orientação a educação para a autonomia que, numa perspectiva piagetinana, significa: capacidade do individuo se situar consciente e competentemente na rede dos diversos pontos de vista e conflitos presentes em uma sociedade.
Apesar de o termo constar emplanos ou projetos da grande maioria das escolas, o que verdadeiramente verificamos na prática são ações coercitivas desde a organização dos tempos e espaços, passando pelas metodologias e culminando no grande nó: a avaliação. Nossas escolas são verdadeiras fábricas, com suas linhas de montagem – alunos desestimulados na busca pelo conhecimento e professores submetidos a um sistema que lhes exige um aluno crítico, consciente e competente, mas que não retornam com o mínimo de contrapartidas: jornada de trabalho adequada, tempo (e estímulo) para estudo e reflexão, além de salários justos.
Ou verdadeiramente, numa atitude crítica e ética, aprendemos a exercitar e colocar em prática as concepções que o papel tão bem aceita, ou corremos o risco de ter que estender a famosa “reunião de pais e os boletins” para os cursos de pós-graduação. Teremos doutores em heteronomia.