
Quando cheguei a este mundo na metade do século passado, julho de 1952, nossa Fernandópolis chamada de Terra Moça na letra de seu hino de autoria da professora Vandalice Renesto, não passava de uma pré-adolescente na exuberância e na flor de seus treze anos. Por isso, até hoje, ainda a chamo de minha “mãe menininha”.
É certo que ainda menino, meio bicho do mato, nascido nas beiradas do Córrego das Pedras, ainda vai pela minha memória distante, o dia que pela primeira vez fui até o centro do seu coração de 19 ou 20 anos; mas me lembro bem das ruas movimentadas, cheias de gente e do seu comércio vibrante. Era a época que a agricultura vivia seu auge, nos áureos tempos do café por estas bandas.
Ainda me lembro das máquinas trabalhando na preparação para o asfaltamento ali diante do Frangão, onde antigamente era a Grecco Eletromóveis, o Bar Heliar e do outro lado, onde hoje é o Itaú, era a Arakaki Massey Ferguson; mais abaixo, na esquina, onde hoje é a Padaria União, era o Banco Brasileiro de Descontos, que acabou virando Bradesco. Encantado,fiquei ali com uma caixa de engraxar sapatos nas costas, vendo o chão ser coberto por asfalto. Eram ruas de terra, as principais avenidas da cidade.
Também me lembro do Posto Esso, sendo demolido para a construção da Coferauto Volkswagen, hoje Faria Veículos. No prédio da Estamparia Carioca, funcionava a Ford Willys, com o seu nome e emblema desenhados nas pedras coloridas da calçada. E a partir dali, onde antigamente começava a Avenida Afonso Cáfaro, as memoráveis e maravilhosas floradas dos flamboyants que ornamentavam o canteiro central. E o riachinho da Praça Joaquim Antonio Pereira, com sua ponte em curva, fonte luminosa e suas carpas coloridas?
Ah, o “footing” das noites de sábados e domingos, depois da sessão das seis no Cine Fernandópolis!. Para os jovens daqueles tempos, 9 da noite era o prazo limite para se chegar em casa. Como a sessão das 8 no Cine Santa Rita, era sempre para maiores de idade, então a gente assistia a sessão das seis no Cine Fernandópolis..
Outra imagem que carrego daquela época, foram algumas safras recordes de algodão, arroz e café. As máquinas de benefício trabalhavam dia e noite à todo vapor. As usinas de beneficiamento de algodão da Sambra e da Anderson & Clayton, zuniam dia e noite todos os dias da semana. Nos pátios imensos, longas filas de caminhões aguardando a vez para descarregar o “ouro branco”, formando montanhas de fardos, organizados como se fossem quarteirões de pequenos prédios da altura de um sobrado. Outras filas se formavam nas imediações do IBC e do Ceagesp, para descarregar café, arroz e milho. Lembro que teve um ano, que se formou uma fila gigantesca de caminhõespara carregar arroz do Ceagesp, para Uberaba e Uberlândia. A inacreditável fila que perdurou por semanas, chegava até onde era a antigaAuto Peças Renê, hoje Santa Lúcia Auto Peças.
E os grandes e históricos comícios dos anos sessenta na Praça Coutinho Cavalcanti, depois Praça da Liberdade, e agora, Praça Dr. Fernando Jacob? Por ali passaram lendários personagens da história política brasileira como Adhemar de Barros, Jânio Quadros, Lino de Mattos, Ranieri Mazilli e o ainda jovem, Ullysses Guimarães. Dizem que Jânio comeu um sanduíche feito pelo CarminoStelucci, do Bar Heliar, sentado na calçada, no meio do povo. Tempos inesquecíveis.
E puxando pela memória, lembro que o sentido de mão de trânsito das ruas Brasil e São Paulo, era ao contrário de hoje. As Avenidas Manoel Marques Rosa e a Amadeu Bizelli, também foram mudadas e naquela época, a então Avenida 7 e a rua Sergipe, eram as “ruas vivas” da cidade; movimentadas, fervilhantes, com um comércio muito forte.
E as tardes esportivas no Estádio Municipal Amaral Furlan, depois John F. Kennedy, e agora, Cláudio Rodante? Ainda menino, vi um dia otimaço do Caciquinho, golear um time de Votuporanga, por incríveis 22 a 2. E então,a ABE – Associação Bancaria de Esportes, a “Águia Azul e Branca”? Lembro até um refrão do hino; “bola no centro/bola no ataque/bola no pé/É chute em gol/vitória da Abe (pronunciava-se Abeé). Time de Olavo, Botão, Joy, Martins e Zéca Preto; Euzébio e Torres; Jesus, Joãozinho, Téia e Canhoto. Quanta saudade das goleadas, dos derbys com a Votuporanguense e a Jalesense. E naquele gramado, pisaram monstros sagrados do futebol nacional como Djalma Santos, Valdir Joaquim de Morais, Ademar Pantera, Tupãzinho, Ademir da Guia e Dudu; Suly, Roberto Dias, Faustino, Paraná, Peixinho e tantas outras lendas.
Tempos heroicos e pioneiros da Rádio Cultura, de Moacir Ribeiro, onde Nhô Cido, era a principal atração da primeira emissora da cidade. Depois surgiu a Rádio Educadora Rural, de Leodegário Fernandes, hoje Rádio Santa Rita. Havia ainda o serviço de alto-falantes da Praça Joaquim Antonio Pereira, cujo estúdio ficava no 1º andar do prédio da Loja Riachuelo. Na imprensa escrita havia o Fernandópolis Jornal, da família Leone; o Diário de Fernandópolis, de Emerson Sumariva; O Imparcial, de João Garcia Pelayo, e depois, no final dos anos sessenta, surgia a Gazeta da Região, de José de Freitas. Em julho de 74, Zeca Moreira e Chico Melfi, fundavam a Folha de Fernandópolis.
Mas voltando um pouco no tempo, as manhãs de domingo no palco do cine Santa Rita, eram animadas. Anésio Pelicione, o Matinê, Francisco Machado, o Chiquito e Alencar Scandiuzzi, o César Filho, comandavam o show de calouros, onde o sempre elegante “Detefon” imperava como astro principal. Esse trio era terrível, parada dura mesmo. Certa vez, venderam um show de paraquedismo e lotaram o Estádio Municipal.
E as feiras de ciências do Instituto de Educação? No terreno defronte à escola, havia um campinho de futebol, onde eram realizadas as aulas de educação física. Na época das “Feiras de Ciências”, o local virava base de lançamento de foguetes. Teve um ano que um grupo de alunos montou uma “rádio pirata”, na quadra de esportes. A antena, era um imenso bambu gigante fincado do lado de fora da quadra, e a incrível“rádio dos estudantes”, podia ser sintonizada num raio de até cem metros do local. Os festivais de Musica Estudantil, eram arrepiantes, lotavam a quadra do Instituto de Educação, hoje EELAS: lembro que havia até torcida organizada.
E os grandes bailes do FEC, Fernandópolis Esporte Clube? Eu era apaixonado pela Orquestra Laércio de Franca e fã da “crooner” Gracinha Leporace. Também não perdia os bailes animados pela também famosa Orquestra Leopoldo de Tupã. Todo sábado tinha baile com The Black Falcons, The Hells ou a Banda Jovem Capri. As noitadas de carnaval, animadas pela banda da Familia Bortoleto; os shows das Semanas de Universitárias ou de Artes, que trouxeram para cá gente famosa como Plínio Marcos, Grupo Tarankon, Ari Toledo, Conjunto Atlantis, Vínicius, Toquinho e Maria Creuza, Jair Rodrigues e João Bosco, entre outros.
Se você é desse tempo, com certeza vai se lembrar do “botinão” da Casa Douglas, de Lúcio Burguer. Mas, a primeira vez que vi um caminhão dos “Bombeiros” na cidade, foi quando as “meninas do basquete” sagraram-se Campeãs do Estado e desfilaram nele pelas principais ruas de Fernandópolis, exibindo o troféu. Era um timaço, formado por Soninha Arantes, Re, Su, Má, Marli e Usa, a grande fera do time. O time era tão bom, que nos treinos, sempre ganhava do time masculino. E no Pavilhão Cultural da Expô, em maio de 75, há exatos 42 anos, me lembro do meu amigoWilsomGranella, muito moço ainda, em noite de autógrafos, no lançamento de seu primeiro livro; “O Toten do Amor”. Bons tempos, aqueles!
E aqui e agora, pensando com meus botões, me pergunto: cadê a efervescência da nossa juventude? Acho bom parar por aqui: um dia ainda volto ao assunto. E é fazendo essa revisita ao passado, que vejo o quanto sou apaixonado por minha cidade. Fernandópolis virou uma respeitável setentona, bonitona, mas para mim, será sempre minha “mãe menininha”! Semana que vem tem mais.