Não assisti à votação da admissibilidade do processo de impedimento da Presidenta Dilma, era pura perda de tempo. Mas, diante da repercussão de alguns episódios do tal evento e da exposição dos mesmos na mídia – não teve jeito – me permiti alguns momentos de reflexão sobre os mesmos.
A primeira imagem que assisti no telejornal da manhã de segunda feira foi o renitente “sim, sim, sim” de uma deputada de Minas que votou pela “honestidade” do prefeito de sua cidade – que a imprensa depois noticiava ser seu marido –, e que logo em seguida a prisão do “dito cujo” por desvio de verba federal da Saúde para o hospital de seus parentes. Sinceramente, pra mim isso é apenas “fake”, ou “boi de piranha” – como preferirem. É mais para dar a impressão que a corrupção vai, definitivamente, ser enterrada nessa terra de justiça e paz. Ou alguém acredita que todos os citados nas Lava Jato da Federal serão punidos?
Vamos dar tempo ao tempo. Depois li uma análise de cientistas políticos sobre a argumentação dos nobres deputados na tal da votação: nossos parlamentares dedicaram seus votos às suas famílias, a Deus, aos evangélicos, aos cristãos, aos correligionários e afins. Numa república verdadeiramente laica e democrática, que tem por principio o direito e a cidadania os argumentos mais usados foram justamente o oposto. O que é pior: desqualificados.
A maioria dos discursos sequer teve fundamentação acerca da existência de crime de responsabilidade. Foi um julgamento político ideológico e extremamente tendencioso. Segundo o professor Rodrigo Gonzalez, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) cada parlamentar usou seus trinta segundos de fama. “Porque é bom lembrar que, fora poucas lideranças, a maioria tem poucas oportunidades de aparecer na mídia nacional. É a oportunidade que os deputados pouco conhecidos têm, e vale qualquer tipo de manifestação”.
Finalmente foi a tal “cusparada” do Jean Wyllys e a homenagem-provocação do Bolsonaro ao criminoso torturador Brilhante Ustra. Claro que esses não são comportamentos esperados de representantes do povo. Mas me ponho a pensar: será que alguém consegue imaginar o que é ser discriminado e perseguido cotidianamente por sua condição socioeconômica, por sua orientação sexual, por gênero, por suas opções político ideológicas, ou pela cor da sua pele? Creio que somente quem vive esse pesadelo pode realmente saber o que sente o Deputado Wyllys. Será que escravos, exilados, mutilados por qualquer espécie de tortura ou violência conseguiriam se calar ou oferecer a outra face? Dúvido!
Contra o senso comum que não propõe uma séria reflexão acerca do maior dos preceitos – a Liberdade – caríssimo aos homens e à humanidade e contra o maniqueísmo que deturpa até mesmo um dos mais sublimes princípios da cristandade, transcrevo abaixo o texto que o jornalista Euler (lê-se Óiler) de França Belém publicou no jornal Opção, elaborado pelo professor e doutorando Thiago Cazarim do Instituto Técnico Federal de Goiás. Segundo o autor, ignorar a diferença política e ontológica entre o cuspe do deputado do PSOL e os cuspes do deputado do PSC é reproduzir o jogo leviano que nivela crachos e escrachos. “... O cuspe é a salivação guardada na boca que tem apetite; assim, o cuspe se acumula nesse espaço ao mesmo tempo escondido e superficial, fechado e comunicante... é também ruminação sem objeto ainda palatável, e não é à toa que cuspir é simultaneamente transitivo e intransitivo... essa ambiguidade que tem a forma de salivação ruminante que se guarda e se projeta ao exterior... Nesse sentido, o cuspe se volta contra aquilo que não tem objeto preciso, contra aquilo que, muitas vezes sem forma exata, apenas conhecemos pelo que oferece de resistência. O alvo do cuspe é, em última instância, sempre chão. O que representa Jair Bolsonaro senão o chão absoluto, a dureza completamente asfáltica que resiste a qualquer contato prolongado, paciente, razoável, fértil? ... Bolsonaro ... mostra-se como o limite daquilo que reconhecemos como civilidade, legalidade e decoro parlamentar... é sempre e indesculpavelmente o chão, o clichê ao mesmo tempo genérico e concreto diante do qual, esgotadas todas as possibilidades dialógicas, só vem à mão a resposta-cuspe — e isso mesmo considerando que Bolsonaro, essa dureza incontornável, é ele mesmo um cuspe constante na face da nossa democracia. Porém, ignorar a diferença política e ontológica entre o cuspe de Jean e os cuspes de Bolsonaro é reproduzir irresponsavelmente o jogo leviano que nivela crachos e escrachos. Defendo o cuspe de Jean não pelas razões que em tese o perpassam, pois seu cuspe só aparece onde o exercício de alguma razão possível não é senão um vazio maciço. Mas a defesa de Jean também se dá nesse lugar em que a razão, falhando e faltando, abre-se ao cuspe como forma simbólica sintética, poética à sua maneira, de resistência líquida possível contra o duro absurdo e insuportável representado por Bolsonaro. Se alguns de nós achamos que se pode comparar o cracho líquido de Jean e os escrachos sólidos de Jair, talvez então o problema seja menos de gostos e tatos e mais de olfatos incapazes de localizar a origem da putrefação que se forma em nosso regime político.
E não é demais lembrar que o que nutre o chão e lhe confere em parte sua solidez é justamente um apodrecimento. Já a água, a água lava — inclusive a alma.” E por isso minha boca e minha mente sempre estarão abertas.
E por isso não me calo!