HISTÓRIAS DO T

Clube da memória

Clube da memória

Publicada há 7 anos


Vai me dizer que você nunca perdeu uma noite de sono, nem teve um daqueles pesadelos de cair da cama, ou que ficou de cabelos em pé, com o corpo todo arrepiado, o coração batendo disparado e um calafrio percorrendo a espinha, com medo de assombração? Lembro que na minha infância e adolescência, nesta época de quaresma, ninguém se atrevia ficar até tarde da noite em lugares ermos. Passar diante de um cemitério, então, nem pensar.

Quem tinha juízo se recolhia cedo. Porque desde pequenos aprendemos que nesta época do ano, tudo que é bicho ruim e almas penadas, andam soltas, vagando à esmo pelas quebradas do mundo. Sempre tinha alguém que contava que um conhecido ou um parente, já havia tomado um carreirão de um lobisomem. Aqui em Fernandópolis, por exemplo, teve uma época que havia o “vampiro” do Jardim Paulista. Dizem que o bicho era tão feio e assustador, que até os cachorros se escondiam com medo do tinhoso. Quem jura que viu o coisa ruim, conta que ele era dentuço, espigado, usava uma capa preta longa e os olhos pareciam duas brasas acesas andando na escuridão.

Na quaresma, diziam os antigos, era o tempo das aparições do outro mundo. Eles garantiam que nas noites de lua cheia, andar à noite, era certeza de encontrar pela frente qualquer um desses bichos assustadores, lobisomens principalmente, ou pior ainda, dar de cara com a Mula Sem Cabeça, correndo desembestada pelos pastos, soltando um canudo de fogo pelo pescoço! E esse período era também o tempo de aparição da misteriosa Mulher de Vestido Branco e de outras criaturas do além, que perambulavam sem rumo pelos estradões do mundaréu. Por conta disso, tinha gente que costumava carregar crucifixos, dentes de alho e até saquinhos com sal grosso nos bolsos das calças ou dos paletós. Ressabiado, o povo da roça se resguardava. E não tinha conversa.

Acredito que a origem dessas crendices e desse receio das pessoas naqueles tempos, remonte à infância que tivemos. Nada de psicologia, não. Acontece que naquela época, quando a maioria dos sessentões e setentões de hoje ainda estavam na infância, nossos pais tinham o hábito de contar historinhas todas as noites. Pelo menos no meu caso, as historinhas que ouvia eram na maioria de assombrações, almas penadas, bicho-papão, mula sem cabeça, saci-pererê, do homem do saco e vai por aí.

Essas mesmas historinhas, um dia, nossos avôs contaram para os nossos pais. A coisa vinha lá de longe, passando de geração a geração. E como muitas delas impressionavam - claro, nossos velhos caprichavam nos detalhes -  tanto que muitos ficavam tão impressionados, que viam numa sombra de uma folhagem qualquer, aquelas medonhas criaturas dos causos que nos contavam. E nossas mães, sempre atarefadas e com um monte de filhos pequenos para cuidar, ainda asseveravam, que era preciso ser um menino bonzinho, para não ser levado pelo homem do saco ou pego pelo tal bicho papão! Amigo, quero ver não ter pesadelos e nem sentir medo.

Ainda com relação ao período da quaresma, durante os quarenta dias de sua duração, ninguém se atrevia comer carne vermelha. De porco, nem pensar. Era pecado mortal, ensinava a Igreja, e os nossos pais seguiam a recomendação à risca. Carne branca até que podia, mas só se fosse de peixe. Então, durante a quaresma, o povo daqueles tempos se munia de varinhas e samburás e buscava a mistura pescando nos riachos, rios, lagoas e açudes. Outra saída, era a sardinha em lata ou a manjubinha seca, comprada à granel nas mercearias e casas de secos e molhados.

Outra coisa muito comum no tempo da quaresma, era o costume das promessas que o povo fazia. Os homens tinham o hábito de deixar a barba crescer e as mulheres não cortavam o cabelo. Aqueles que deixavam a barba, na maioria dos casos, se propunham largar o “pito, o cigarro palheiro”, ou cortar o sagrado “mata-bicho, a famosa pinguinha de todo santo dia”. Também se fazia promessa pedindo a cura de uma ou outra doença e até para se ter boas colheitas. E o povo daqueles tempos levava essas coisas ao pé-da-letra! Prometo que ainda volto ao assunto antes do sábado de Aleluia. Semana que vem tem mais.




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