
Aqueles que viveram o auge de sua juventude, aqui em Fernandópolis, por volta dos anos 60 e 70, vão se lembrar direitinho de como eram as coisas no nosso tempo. Apesar das nossas escassas alternativas de lazer, a gente esperava todo final de semana, contando nos dedos os dias e as horas que faltavam, para poder reunir a “patota” e pegar um cinema, depois um passeio pelo footing da praça da Matriz, uma esticada numa quermesse, fazer uma seresta, ou ainda, matar o tempo, dando um nó no canudinho de coca-cola, com meia dúzia de amigos, “empatando” uma mesa do Minuano, o ponto de encontro da moçada, esperando dar a hora de rumar para o salão do FEC e curtir mais uma brincadeira dançante, ou aquele baile de gala tão aguardado.
Mas, para aqueles que ainda não tinham atingido a maioridade, ou seja, completado os dezoito anos de idade, a vida naqueles dias, era mais do que complicada. Primeiro porque nossos pais eram prá lá de rigorosos, duros na queda, sempre impondo horário pra gente chegar em casa. As mocinhas, coitadas, eram levadas no “cabresto curto”, ou seja, tinham de estar em casa até no máximo dez horas da noite. Com os rapazes, até que havia certa tolerância quando infringiam o horário combinado. Mas o “sabão” era caprichado e sempre certo.
Havia uma amiga da nossa turma, que sempre chegava em casa, rigorosamente antes das dez da noite. Conversava com os pais, dava boa noite e ia para o seu quarto. Uma hora depois, quando todos da casa já estavam dormindo, ela jogava alguns travesseiros sobre a cama e um cobertor sobre eles. Abria a janela cuidadosamente, saindo pé ante pé, para voltar ao encontro da turma. Um dia, coitada, seu plano foi descoberto. Um escândalo, uma vergonha, naquela família tão recatada e tradicional. Resultado: além do “Sermão da Montanha”, ficou de castigo um mês inteiro, sem poder sair nos fins de semana com os amigos. O nome da moçoila? Não revelo nem sob tortura!
Mas havia algo pior que isso. E os menores daquela época, sabiam muito bem do risco que corriam, tanto que a gente sempre ficava de olhos bem abertos, igualo lema dos escoteiros, vivíamos em estado de alerta o tempo inteiro. Esse algo pior, era a temida perua Kombi branca, do Juizado de Menores, pilotada pelo Oficial de Justiça e também Comissário de Menores, Antonio dos Santos, o famoso Tonicão, que fazia a ronda noturna pelas ruas da cidade, vasculhando bares, salões de snooker, quermesses e outros lugares proibidos e impróprios para os menores.
Tonicão era um homem alto e forte, sempre elegante com o seu chapéu de feltro preto, trajando uma impecável camisa branca de linho e calça azul marinho de legítimo Tropical Inglês, pelo seu tamanho e postura,sempre botava ordem e respeito no pedaço. Ele sempre chegava de surpresa e em suas abordagens, e olhando para o menor, mostrava com o dedo indicador, o marcador do horário do relógio indicando que já era mais de dez horas, portanto, era hora de menor de idade ir pra casa. A conversa era bem curtinha. Aliás, Tonicão não era de muita conversa. E nessa hora ninguém discutia, porque não seria um bom negócio desacatar uma autoridade em público, e sair do local sendo levado prá casa, no banco do carona da famosaKombi do Juizado. Se isso acontecesse, seria o pior dos mundos, porque mais tarde, com os nossos pais, a encrenca seria bem maior.
Como não havia outra saída, a gente sempre concordava com sua “recomendação”, e dizia que já estava indo. E ia mesmo. Dado o recado, ele seguia adiante, sem se preocupar, porque sabia que sua ordem sempre era cumprida ao pé da letra. Pelo menos comigo e com meu grupo de amigos sempre foi assim. Quantas e quantas vezes não fiquei com uma baita raiva dele, por ter que deixar uma animada mesa, cheia de amigos maiores de idade, numa quermesse, num barzinho ou sair de uma mesa de bilhar no melhor momento do jogo...
Se com a gente ele era rigoroso, com seus filhos era mais rigoroso ainda. Numa noite de sábado, por volta de 22 horas e uns poucos minutos, numa de suas costumeiras varreduras, passando pelo antigo Copacabana Bar, que ficava na esquina da rua Brasil, com a antiga avenida Cinco, hoje Av. Paulo Saravalli, viu seu filho mais novo, o Nelsinho, ainda menor de idade, belo e folgado sentado numa mesa do bar, feliz da vida tomando coca-cola, acompanhado da namorada. O rapaz tinha 17 anos e a moça 21 anos.
Tonicão chegou na mesa e apontou o dedo para o mostrador do relógio, perguntando se ele preferia ir prá casa sozinho ou de carona na perua do Juizado. Claro que o mocinho não abriu o bico, e quando já estava se levantando da mesa pra pagar a conta, a namoradinha saiu em defesa do rapaz:
- Sr. Antonio, não tem problema nenhum, ele pode ficar comigo. Fico como responsável por ele, eu sou maior de idade, já tenho 21 anos completos...
Antes que a mocinha continuasse a heróica defesa de seu amado, Tonicão resumiu toda a questão numa simples frase:
- Moça, acho bom a senhorita fechar o bico, porque senão prendo você, por aliciamento de menor!
E pensar que até pouco tempo atrás alguns pais e jovens reclamavam, achavam um absurdo o Toque de Acolher, implantado na cidade pelo então juiz da Infância e Juventude, Evandro Pelarim... Eles precisavam ter conhecido de perto o rigor do comissário Tonicão, e sua famosa Kombi do Juizado de Menores; a dureza do delegado Divino Domiciano da Silva e o seu fiel escudeiro Sargento Campos, com aquele veloz jipe capota de aço, apelidado por uns de Corinthiano, porque era preto e branco, e também de “Dona Justa”, por outros. Esse sim era o famoso Trio Parada Dura. Com eles não tinha moleza e a conversa era bem curtinha mesmo. Depois, prá endurecer ainda mais o jogo, veio o serviço de Rádio Patrulha, com aqueles fuscas vermelhos e pretos, logo apelidados de “Joaninhas”. Bons tempos aqueles. Semana que vem tem mais. Até lá.