OPINIÃO

Artigo: Tão perto, tão longe – um paradoxo social moderno

Artigo: Tão perto, tão longe – um paradoxo social moderno

Carlos Eduardo M Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

Carlos Eduardo M Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

Publicada há 1 hora

Há pouco tempo a comunicação a distância era relativamente limitada. Nem todos tinham telefone, e os que possuíam, além de, obviamente, não carregar consigo o aparelho (por isso chamam de telefones fixos), arcavam com o preço das ligações que não eram baratas, especialmente as interurbanas. A conta telefônica era um item que pesava no orçamento das famílias brasileiras.

As linhas telefônicas eram caras, tanto que haviam pessoas que até investiam nestas linhas como se fossem ações de bolsa de valores. Hoje, muitos cortaram a sua linha de telefone fixo e, os famosos orelhões, só existem por força de lei, pois na prática, viraram verdadeiros objetos públicos de museu.

Não vamos muito longe, as gerações nascidas nas décadas de 1970, 1980 e 1990 sabem do que estou falando – telefones fixos, chamadas interurbanas, orelhões com fichas metálicas, enfim, a comunicação a distância tinha lá os seus limites.

Principalmente após a popularização dos smartphones conectados à internet, o nosso dia a dia sofreu uma grande transformação, em vários campos, especialmente na comunicação. Um exemplo interessante – imaginem se a recente pandemia de Covid-19 ocorresse em outra época, sem smartphones conectados à internet? Aí sim o necessário distanciamento social naquela ocasião seria mais cruel.

Não entrarei no mérito dos problemas das redes sociais, mas, sejamos sinceros, como ficou fácil a comunicação entre pessoas distantes entre si.

O seu interlocutor pode estar do outro lado do mundo, não tem problema, basta acessar o famoso aplicativo de mensagens baixado em seu smartphone para se comunicar em tempo real.

Outro dia fiquei pensando - se você pudesse entrar em uma espécie de máquina do tempo e falasse para as pessoas da década de 1980 que, pouco mais de 30 anos no futuro, todos teriam um telefone móvel retangular nas mãos dotado de uma pequena tela colorida (chamado no Brasil de celular) e, por meio dele, poderíamos conversar com todas as pessoas do mundo em tempo real; sem dizer que poderíamos assistir a filmes, trabalhar, acessar mapas de trânsito, estudar, etc (não vem ao caso neste artigo). Certamente as pessoas daquela década torceriam o nariz e diriam que isso é coisa de filme de ficção científica. 

Pois bem! Como todos sabem, essa conveniência é uma realidade hoje em dia e acessível a pessoas de todas as classes sociais. No entanto, curiosamente, se por um lado esse avanço tecnológico facilitou a comunicação como se fosse ficção científica, por outro não aumentou a convivência social. Muito pelo contrário, afastou as pessoas de um contato mais próximo.

Principalmente por conta de um famoso aplicativo de mensagens, a comunicação se tornou facilitada, porém, breve, curtíssima, por meio de troca de mensagens que não podem ultrapassar poucas linhas e de áudios que não podem durar mais que um minuto (alguns encaram até como inconveniente um áudio mais longo). Um áudio com um recurso que pode aumentar em até duas vezes a velocidade de fala da pessoa. O que é isso? Todo mundo passou a sofrer de ansiedade? Está todo mundo com pressa? Vão tirar o pai da forca? Chega a ser engraçado ouvir a voz acelerada no aplicativo como se fosse um papagaio com transtorno de hiperatividade ligado na tomada 220V.

Faz uma experiência - liga para um conhecido por meio do celular (ligação convencional)! Há uma grande chance dele não te atender e não devolver a ligação. A não ser que esta pessoa tenha algum tipo de interesse pessoal nessa conversa.

Todos mandam mensagens neste famoso aplicativo com apelido de naipe do famoso jogo de cartas chamado truco, mas ninguém vai mais na casa de ninguém conversar pessoalmente, as pessoas não se comunicam mais de forma aproximada, não fazem mais chamadas convencionais ao telefone, não ficam mais na frente das casas dos vizinhos conversando e sentadas naquelas cadeiras de cordas. De certa forma, todos se afastaram.

Nas mesas de bares, choperias e restaurantes, não raro, vemos amigos cutucando os seus celulares ao invés de conversar uns com as outros, darem risadas, relacionarem-se, enfim, tudo muito esquisito.

A vida já é corrida, agora, também está mais solitária. Solidão no meio da multidão.

O smartphone conectado à internet facilitou muito a comunicação a distância, mas afastou as pessoas de um contato mais próximo.

Esse fato é preocupante, pois não nos esqueçamos que o ser humano é um animal social por natureza, necessita se relacionar proximamente com os seus entes. Uma boa convivência social é fator de manutenção de saúde emocional.

Enfim, tão perto, tão longe! Tão próximo, tão distante! Um paradoxo social moderno.

Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira (Prof. Cadu) é biólogo e cirurgião-dentista; mestre em Microbiologia e Doutor em Geologia Regional com ênfase em Paleontologia de Vertebrados; professor EBBT; coordenador de Extensão do Instituto Federal de São Paulo, Campus Votuporanga e Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

O texto é de livre manifestação do signatário que apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados e não reflete, necessariamente, a opinião do 'O Extra.net'.

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