Claudinei Cabre

HISTÓRIAS DO TEMPO DO BOTINÃO

HISTÓRIAS DO TEMPO DO BOTINÃO

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos

    


Se você é uma daquelas pessoas que acham que os meninos dos anos sessenta, eram verdadeiros “moleques de rua”, um “bando de capetinhas”, e que as meninas eram umas “bobinhas”, acredite, você está redondamente enganado. Nem todos eram isso, nem todas eram aquilo. Os pré-adolescentes dos chamados anos dourados, eram sim bastante ativos e muito criativos.


De repente, do “nada” a gente inventava uma brincadeira ou uma ocupação e juntava a moçadinha. Aliás, todo mundo tinha uma turminha da sua rua ou do seu bairro. E cada grupo tinha o seu líder, um gênio do bem, um gênio do mal, um encrenqueiro, um engraçadinho e vai por aí. Meninos e meninas tinham seus clubinhos fechados, mais ou menos como o “Clube do Bolinha”, dos gibis, onde menina não entrava ,ou o “Clube da Luluzinha”, onde eles também eram barrados. E coitado do menino que se aproximasse de um grupo das meninas. Logo, era taxado de “mariquinha”.


Eram territórios sagrados e os grupos só se misturavam mesmo, durante os jogos de “bola queimada” ou nas brincadeiras do “passa anel”. Eram tempos prá lá de inocentes. Namorar?  Só depois dos quinze ou dezesseis anos. Elas sonhavam com o “príncipe encantado”, que desceria das nuvens, galopando um lindo e veloz cavalo alado. Já os meninos, sonhavam com lindas princesas de cabelos longos, de fios dourados, de tranças também. Se você puxar pela memória, vai se lembrar que até havia uma música que falava da “menina de tranças”...


Até a paquera naquele tempo tinha outro nome, era o flerte. Era uma coisa sutil, um jogo onde havia regras e códigos. E esse rito de aproximação do futuro parzinho, sempre era conduzido com muito cuidado pelos amigos e amigas, que faziam a ponte entre os jovenzinhos enamorados, bancando o “cupido”, dando dicas e pistas, por vezes bancando o carteiro, levando bilhetinhos com versinhos e “cartinhas secretas”, de um para o outro.


Quando chegavam essas cartinhas era um acontecimento; o coração disparava, o rosto corava, principalmente se junto com a cartinha, viesse um papel de bala “Chita ou Pipper”, cuidadosamente dobrados, sinalizando que o outro estava mandando um beijo. Esses papeizinhos tinham um significado tão grande, que eram guardados como troféus no meio de livros, cadernos ou na carteira.


A escola ou a vizinhança era o espaço onde acontecia todo esse ritual de preparação do terreno para o dia do “grande encontro”. Contava-se nos dedos e nos calendários os dias que faltavam para a grande data. Ensaiavam-se frases românticas e até versinhos, iguais aos dos correios elegantes das famosas quermesses da Praça da Matriz.


O dia do grande encontro sempre acontecia aos domingos, quando meninas e meninos do meu tempo iam assistir à sessão das seis, no Cine Fernandópolis. Depois seguiam com seus grupinhos para a Praça da Matriz, onde acontecia o famoso “footing”. As ruas que contornavam a Praça Joaquim Antonio Pereira, eram bloqueadas ao trânsito, se transformando num autêntico passeio público. Bons tempos aqueles.


Meninas, mocinhas e moças, sempre em grupos ou no mínimo em duplas, seguiam pela rua São Paulo, desciam pela antiga Avenida Seis, passavam defronte a Igreja, rumavam pela Rua Brasil, completando a volta da praça subindo pela antiga Avenida Sete. Os meninos, mocinhos e rapazes, também em grupos ou em duplas, quando não iam em sentido contrário, ficavam parados na calçada, flertando, jogando sinais que eram códigos que todas elas entendiam o significado.


Rapaz parado, de braços cruzados, com o dedo indicador da mão esquerda no rosto, significava “solteiro, livre e desimpedido”. A mesma posição com dois dedos no rosto, “tenho namorada, sou comprometido”. Indicador da mão direita sinalizando repetidamente junto aos lábios, seguido de um circulo no ar, dizia claramente, “quero falar com você, na próxima volta”. E as vezes a conversa nunca acontecia, porque a pretendida sinalizava que não, mostrando um anel ou aliança no dedo, ou que não queria conversa e pronto, ou ainda, simplesmente tomava chá de sumiço.

Quando o encontro acontecia, era um “Deus nos acuda”. As frases ensaiadas sumiam, as mãos tremiam, as pernas bambeavam e o coração parecia que ia sair pela boca, tamanha a timidez que havia, tanto deles quanto delas. Olhar nos olhos, nem pensar. Falava-se de tudo, menos do principal. O primeiro pedido do rapaz sempre era o mesmo “posso te levar em casa?”.  Se a resposta fosse positiva, seguiam juntos pela calçada, apressados, sempre acompanhados de perto pelo grupo de amigas da mocinha. Era preciso entregar a nova namorada, antes das nove da noite, em ponto, sempre voltando um quarteirão antes. Os namoros eram super secretos.


Pegar nas mãos da menina, só depois de alguns meses de namoro. Beijar no rosto ou na testa da namorada (era sinal de respeito), só depois da permissão de pegar na mão dela. Até chegar ao beijo na boca, era uma eternidade. Tinha que ser escondido, só no escurinho do cinema, ainda assim, no começo, só beijo roubado. Bons tempos aqueles. Semana que vem tem mais. Até lá.



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