Conforme havia escrito há duas semanas: continuo a atender o pedido de meu querido amigo, Gil Piva, quanto a discorrer acerca do tema Ética. Minha empresa nessa coluna, é tratar o conceito à luz de alguns filósofos. Por formação, gosto de respeitar a cronologia, bem como o contexto histórico. Portanto, começo com um dos primeiros filósofos – Epicuro -, para, em seguida, expô-la em Sócrates, Platão e Aristóteles.
Temendo a o esgotamento da paciência de meus raros e caros leitores, passo, rapidamente, pelos Medievais e, finalizo com Descartes e os Empiristas.
Encerro esse texto na modernidade.
Os próximos serão Kant e os Iluministas.
Portanto, voltemos à Grécia Clássica, Atenas, período no qual viveu Epicuro.
De forma resumida, para ele o bem maior é a Felicidade – Kalil -, para tanto era necessário o conhecimento. Reparem: o conceito de felicidade para Epicuro é muito mais fértil, amplo e rico, se comparado ao atual, cujo estado é obtido via consumo e cultivo do egocentrismo, escancarado nas páginas do “facebook”
Todavia, para obter o conhecimento, é mister o ócio. Sim, não fazer nada, no sentido da desobrigação compulsória e mortificante do cotidiano. Aquela infeliz repetição que nos leva à alienação, a vida mecânica e nadificada. O ócio é o momento em que nos desobrigamos fisicamente, para nos entregar a reflexão, ao encantamento, ao desvelar do mundo.
Com efeito, o ócio nos permite pensar. Plenamente falando. Produzir ideias. Logo, o filósofo Epicuro nos ensina que: somente se é feliz, se houver conhecimento. Se o temos, encontramos o prazer. Logo, uma vida autêntica e ética.
Sócrates é o primeiro filósofo a operar a ruptura definitiva com o mito. Seu postulado é calcado exclusivamente no uso da razão, processa a dicotomia entre o ético e o epistemológico. Isto é, a razão constituirá, a um só tempo, um instrumento de construção e aquisição de conhecimento, via seu “parto das ideias” e ação, entendida aqui como ética.
Logo, para Sócrates, ética consiste no uso da racionalidade, tanto para proceder no aprendizado, quanto para conduzir-se nos negócios da pólis, na ação da chamada cidadania, portanto, caráter.
Em Platão não há muita diferença, no entanto, há que se acrescentar que o enfatiza a importância de se conhecer para o bem, quer dizer, garantir o bem-estar da comunidade, visto aqui como valor ético, não simplesmente moral. Sempre se pautando na razão.
Na vigência do século III a.C., vindo de Estágira, Macedônia, o preceptor de Alexandre, Aristóteles, também produz sua apreciação acerca do tema Ética. O faz na obra intitulada “Ética a Nicômaco”.
Em poucas palavras: para Aristóteles, Ética, é ação com base na racionalidade. Todavia, mediada pelo perene equilíbrio. O meio exato entre o excesso e a falta.
A disputa entre Atenas e Esparta, corroborou com a Guerra do Peloponeso, causadora do fim das pólis e propulsora do domínio da Macedônia. Com essa construísse o “Mundo Helenístico”, ou seja, a fusão das culturas da Grécia, da Macedônia e as demais conquistas por Alexandre Magno.
Sua morte, a dissolução daquele mundo, trouxeram os romanos a região, no momento da expansão de seu Império. A passagem de Cristo pela Terra, produziu a divulgação de seu Evangelho e sua rápida difusão.
A crise econômica vivida pelo império romano, produz seu auto estrangulamento. Na tentativa desesperada de se manter, sai a busca de aliados. Por serem numerosos, os cristãos são o alvo principal. Assim: os Editos de Milano (séc. II d.C.) – que dava liberdade de culto e proibia a perseguição aos cristãos – e o Edito da Tessalônica (séc. IV d.C.) – o qual oficializa o cristianismo como “religião oficial de Roma” -, apenas esperam o solapar desse combalido império. No século V, a invasão dos Hérulos aciona sua derrocada.
Todavia, no seu interior, está em gestação a instituição Igreja Católica Apostólica Romana. Para empreender seus intentos, apodera-se de todo saber produzido na antiguidade e o adequa para seus interesses políticos, ideológicos e epistemológicos. Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino são seus maiores monumentos. O primeiro, via Platão e o segundo através de Aristóteles, traduzem a Ética, pautado nos valores cristãos como o caminho que leva à Deus. Logo, é a fé, a busca da salvação, o caminho da retidão nos princípios cristãos que a trará.
O Renascimento das Ciências e das Artes, traz consigo rupturas de todas as ordens. Uma delas é a intelectual. Portanto, faz-se necessário que se opere a separação da dicotomia fé e razão. É fundamental que se liberte a Filosofia do domínio da Teologia. São terrenos distintos e díspares.
Coube a Descartes realiza-lo. Logo, o tema Ética volta aos gregos clássicos. O uso da razão – “Capacidade de distinguir o verdadeiro do falso”. Nas palavras do sábio francês – volta aos caráteres ético e epistemológico. Assim, ética é agir de modo racional e equilibrado.
Aos Empiristas caberá salientar a necessidade do uso da experiência, da afetação dos sentidos, como nos ensina David Hume.
Finda essa segunda sessão, permitir-me-ei ponderar uma questão: na sexta-feira próxima passada, assistimos a um espetáculo digno do título de “Comédia pastelão”. No momento do julgamento da chapa Dilma-Temer, os juízes Luiz Fux e Rosa Weber apresentaram provas contundentes e insofismáveis, quanto a culpabilidade dos réus. No momento em que se pronunciaram a partida – quer dizer, o julgamento – estava dois a um para o Temer. Seus votos pela condenação, empataram o jogo, quero dizer, a votação.
Era necessário o “Voto de Minerva”. Dado pelo presidente do TSE, Gilmar Mendes. Com total desfaçatez, começou um discursinho calhorda e falacioso, alertando que “se tratava de um presidente”. Ignorou todas as provas contundentes, as explanações dos colegas. Ignorou a Ética, de maneira ilógica e desequilibrada, tendendo totalmente ao temor e a falta de coragem; com excesso de safadeza, absolveu o “mano”, quero dizer, Temer.
Faltou Ética.