Jacqueline Ruiz

Aromas e lembranças

Aromas e lembranças

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Publicada há 8 anos

Normalmente ando muito. Por não gostar de dirigir –não me adapto ao banco do motorista – algumas vezes tenho que ir para vários lugares a pé. Nas minhas caminhadas além de movimentar o corpo exercito o cérebro. Dia desses, ao ir para o trabalho, passei por uma casa onde alguém preparava a comida para o almoço. O característico aroma de alho e cebola fritando na panela não deixava dúvidas: feijão fresquinho!


A fragrância imediatamente despertou a memória. Que poder tem a simplicidade de um aroma: cheiro do pão assado, do café “passado na hora”, de bolo no forno, de fruta madura no pé....


Lembrei-me dos almoços de domingo, da casa repleta de gente, família reunida. Minha avó cozinhava, sempre. Quando não era a macarronada – temperada com molho de macarrão em uma enorme bacia de alumínio – era a polenta. Depois de pronta e colocada na travessa, invariavelmente, chamava as crianças pra “raspar o tacho”. A panela era colocada debaixo da grande mesa e os netos, munidos de colheres, disputavam pra ver quem comia mais. Confesso que polenta não é um prato que me atrai, mas a lembrança desse tempo me faz ficar com água na boca e muita saudade.


A nostalgia me fez comprar, certa vez, uma bacia de alumínio e também uma máquina de fazer macarrão. Quando minha mãe me visita peço-lhe que faça uma bela macarronada, que é servida, obviamente, no recipiente em questão. Puro deleite!


A máquina de fazer macarrão, em tempos “fast food” soa até anacrônico –não foi só amemória olfativa que me obrigou a aquisição. É que solicitei da minha tia-avó, Ruth, sua deliciosa receita de massa de macarrão, que ela até hoje prepara para os almoços em família. E das tias do meu marido – descendente de italianos também –, herdei a receita de “cartelatte”, que elas carinhosamente chamam de roseta. Pela tradição, reúnem-se, preparam a massa, fritam, colocam mel, acondicionam em grandes latas e guardam para servir para as visitas nas festas de final de ano. Pelo prazer de cozinhar tento manter vivaessa tradição. Assim, quem sabe, um simples aromapossa despertar nas pessoas que prezo e amo as mesmas lembranças que revivo.


Outra lembrança rememorada: a intrigante frase do livro “O Perfume”, de Patrick Süskind"...as pessoas podiam fechar os olhos diante da grandeza, do assustador, da beleza, e podiam tapar os ouvidos diante da melodia ou de palavras sedutoras. Mas não podiam escapar ao aroma. Pois o aroma é um irmão da respiração – ele penetra nas pessoas –, elas não podem escapar-lhe caso queiram viver. E bem para dentro delas é que vai o aroma, diretamente para o coração, distinguindo lá categoricamente entre atração e menosprezo, nojo e prazer, amor e ódio. Quem dominasse os odores dominaria o coração das pessoas."




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