Carlos Eduardo

Gravidez na adolescência: um problema de Saúde Pública

Gravidez na adolescência: um problema de Saúde Pública

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Publicada há 8 anos

            “Tenho sonhos. Sonho de cursar uma faculdade, de conseguir um bom emprego, de me casar e ter filhos, obter conquistas pessoais, tudo no momento certo. No entanto, atrasou, fui à farmácia e o resultado deu positivo. Encontro-me só. Tudo será mais difícil agora, não era o tempo certo. Não tenho alternativas, apenas uma única solução, difícil e perigosa. Acho que vou arriscar”.


            O relato acima é fictício, mas,infelizmente, a situação retratada é real e muito frequente entre meninas adolescentes que engravidam, precocemente,ao não se prevenirem por meio de um método contraceptivo adequado, tornando suas vidas mais difíceis ou até mesmo perdendo-as ao se sujeitarem ao aborto inseguro no submundo das clínicas clandestinas.


            Embora o aborto seja proibido no país, em três casos essa prática é permitida: quando a gravidez coloca a vida da mãe em sério risco e não há outra solução senão o aborto; uma gravidez resultante de um estupro e ao se constatar anencefalia no feto, ou seja, ele está sendo gerado sem “cérebro” (neste último caso a permissão da Justiça baseia-se na jurisprudência).


            De acordo com dados de um relatório intitulado “Maternidade precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência”, publicado pelo Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) em 2013, anualmente, cerca de 16 milhões de meninas com idade inferior a 18 anos dão à luz no mundo e outras 3,2 milhões se submetem a abortos inseguros.O estudo ainda destaca que, diariamente no mundo, 20 mil adolescentes com menos de 18 anos dão à luz e 200 morrem devido a complicações na gravidez ou parto.


            O relatório da UNFPA apresenta a seguinte recomendação: “a gravidez na adolescência é uma questão de saúde pública, pois as mães mais jovens podem enfrentam risco maior de complicações do parto, morte e invalidez, incluindo a fístula obstétrica (um canal formado entre a vagina e a bexiga ou o canal retal, através do qual urina e fezes escapam continuamente). Além disso, a jovem grávida tem sua infância abruptamente interrompida, uma educação reduzida e perda de oportunidades”.


            No Brasil, há uma relação estreita entre a gravidez precoce, baixo nível de escolaridade e pouca inserção no mercado de trabalho entre as jovens brasileiras, especialmente entre as classes sociais mais pobres. O peso da responsabilidade em enfrentar uma gestação e depois criar um filho, ainda muito jovem, faz com que as adolescentes brasileiras abandonem os estudos e também tenham dificuldades em se inserir no mercado de trabalho. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014, 85,4% das mães adolescentes não completaram o Ensino Médio e 59,7% não estudavam e nem trabalhavam. Apenas 2% das adolescentes que engravidaram deram sequência aos estudos.


            Garantir que as meninas visitem, regularmente, o ginecologista, frequentem a escola e recebam informações relativas à saúde da mulher, incluindo educação sexual e reprodutiva, são estratégias indispensáveis na redução dos casos de gravidez em adolescentes. “Quando uma jovem garota é educada, está mais propensa a se casar mais tarde, atrasar a gravidez até que esteja mais madura, ter filhos saudáveis e ganhar uma renda mais elevada”, disse o sul coreano Ban Ki-moon, então secretário geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), ao comentar os dados do relatório apresentado pela UNFPA no ano de 2013.


            Portanto, ao ser definida como um assunto de saúde pública, a responsabilidade na prevenção desse problema deve ser compartilhada entre os vários setores da sociedade: poder público, família, escola, entidades de classe,entre outros, para que a saúde física e psicológica das adolescentes seja preservada, para que seus sonhos não sejam interrompidos e nem atrasados em decorrência de uma gravidez precoce e, por fim, para que suas vidas não sejam perdidas em abortos inseguros praticados no submundo das clínicas clandestinas.




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