HISTÓRIAS DO T

Já que o assunto é o futebol...

Já que o assunto é o futebol...

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos


Como agora o assunto dominante é a final da Copa das Confederações, que acontece amanhã entre Alemanha e Chile, o empate de 3 a 3 entre Palmeiras e Cruzeiro pela Copa do Brasil, Libertadores e Brasileirão pegando fogo, não se fala em outra coisa eu não seja o esporte mais apaixonante do mundo e para não fugir do assunto, vamos também falar de futebol, e amanhã vou torcer para o Chile, ora bolas. Aqueles 7 a 1 ainda estão engasgados na garganta, Amanhã soy Chile desde criancita!


E por falar em bolas, quem é do tempo do Botinão, vai se lembrar de algum dia ter jogado futebol , ou ter visto os meninos jogar nas ruas de terra batida com as memoráveis “bolas-de-meias” e até “bexigas” de porcos.


Bolas de futebol como conhecemos hoje em dia, como essas da Copa das Confederações e do Brasileirão, nem sonhar. Naqueles tempos, os meninos jogavam futebol nas ruas ou nos campinhos com as bolas de “capotão’ de couro, costuradas à mão. Para os mais pequenos haviam as bolas menores, de números um, dois e três. A número um, por exemplo, a menor e mais leve, era pouca coisa maior que uma laranja Bahia e a número três, mais ou menos do tamanho de uma bola de vôlei. Para os adultos, haviam as bolas número quatro e a número cinco, essa última, conhecida também como “bola oficial”.


Nos jogos de rua, juntava-se a meninada de toda a vizinhança e os times eram formados na base da escolha, através do famoso par ou ímpar. E se o número de candidatos fosse ímpar, o “perna-de-pau” da rua, ia como compensação para o time aparentemente mais fraco.


Tudo era negociado. Chutar de bico ou dar “bicudo” na bola, era proibido, era pecado

mortal, porque acabava deformando a bola, que ficava oval, igual as bolas de futebol americano. Quando alguém quebrava essa regra, automaticamente era expulso do jogo. Outras vezes, o “dono da bola”, quase sempre um “perneta”, colocava a “gorduchinha’ debaixo do braço e pronto: acabava com o jogo. Então, dar “bicudo”, não podia mesmo!


Eram tempos difíceis, o dinheiro era pra lá de escasso e todo mundo jogava descalço. Para formar um time da rua ou do bairro e comprar uma “bola de capotão”, era preciso montar uma verdadeira operação de guerra entre a molecadinha.


Os meninos do meu tempo eram criativos e lidavam bem com essas coisas. Eles faziam listas de “sócios” fundadores e colaboradores, promoviam rifas de álbuns de figurinhas, coleções de bolinhas de gude e até preciosas coleções de gibis, entravam no negócio para fazer caixa. Todo mundo participava, cada um do seu jeito, com o que tinha e como podia. E no final tudo sempre dava certo.


Lá pela metade dos anos sessenta, formamos o memorável time da Avenida Doze (hoje Avenida Américo Messias dos Santos). O nosso campinho de futebol, com traves de bambu, bem menor que um desses campos de futebol “society”, ficava na Rua Brás Cubas, no Jardim Santista, que ganhou esse nome, penso eu, porque a maioria da vizinhança torcia para o lendário Santos F. C., de Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe.


Um belo dia, um dos terrenos do meio da área que formava no nosso campinho, amanheceu fechado com uma cerca de arame farpado, pilhas e pilhas de tijolos e telhas. Era o progresso que chegava ao bairro, acabando com a nossa praça de esportes e ponto de encontro dos meninos da Doze.


O que parecia o fim de um sonho era na verdade o começo de uma bela história. Do lado de baixo da mesma rua de terra batida, onde naquele tempo não havia água encanada, nem esgoto e muito menos energia elétrica, havia um imenso terreno. Era um matagal e tanto, onde a molecadinha se escondia no meio da imensa floresta de mamoneiras, quando brincava de “gringalha” ou de “salva-pegas”. Tempos incríveis aqueles.


Lembro que num final de semana, fizemos uma convocação geral e organizamos um mutirão. E todos apareceram munidos de foices, enxadas, enxadões e rastelos, dispostos à grande tarefa de desbravar aquele imenso terreno. Enquanto uma frente de trabalho cuidava da derrubada da floresta de mamoneiras, outra turma cuidava da retirada dos galhos, seguida de um grupo que capinava, enquanto a última equipe cuidava de rastelar e limpar a área.


Era também preciso providenciar as traves e a tarefa ficou para os maiores e mais fortes, que munidos de machado, foram para as pastagens da vizinhança e derrubaram alguns coqueiros. Naqueles tempos duros, ninguém sabia o que era ecologia, nem tinha a menor idéia sobre preservação do meio ambiente. Aliás, acho que essas palavras nem existiam. Eram tempos inocentes.


Quando tudo parecia pronto para o primeiro jogo inaugural, faltava ainda o toque final. Era preciso marcar as áreas dos gols, as marcas de pênaltis e as linhas do campo. E fizemos as marcações com cinzas de fogão à lenha. Marcar as linhas do campo com cal virgem, para nós, era artigo de luxo. E até hoje ainda não sei direito, se a saca de cal era muito cara ou se o nosso dinheiro que era muito pouco. Acho que eram as duas coisas juntas.


Terminada a grande façanha, chegou o grande dia, o domingo de inauguração do nosso famoso campinho de futebol. Um acontecimento e tanto. Teve até torcida e uns dois ou três foguetes da Caramuru, daqueles de três tiros. Impressionante.

Ali foi, por longos e inesquecíveis  anos, a nossa principal área de lazer e centro de convivência, onde crescemos juntos e nos tornamos bons e leais amigos. Amizades que se consolidaram e atravessaram décadas e décadas. Há histórias e histórias desses tempos. Um dia eu ainda conto como o time da Doze e o time do Ademar Baroni, marcaram um jogo para estrearem juntos os uniformes novos. Aliás, era um acontecimento tão importante, que devido a grande rivalidade, a partida foi marcada para ser disputada em campo neutro. Semana que vem tem mais. Até lá.

 


  

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