A coluna continua a tratar o tema Ética. Concomitantemente, a realidade se mostra cada vez mais cínica e calhorda. Parece tolice falar em razão, no momento em que, a “desrazão”, o desgoverno e o descaso permeiam nossa realidade. Todavia, como me propus, discorro acerca da Ética. Hoje falo em Marx. Novamente, friso: em que peses muitos alardearem seu fim, seu sepultamento, Marx continua vivo e, a meu ver, eficientíssimo como método de compreensão da realidade e do “status quo”. Quero me ater a premissa Ética de sua reflexão: a preocupação com o bem comum. O filósofo germânico construiu uma obra cujo propósito maior, era o bem-estar dos humanos, em especial dos trabalhadores, classe subalterna, a qual, naquele momento, e nesse mesmo, encontrava-se vilipendiada, excluída de direitos básicos, a possuir como uma única perspectiva a conquista da sobrevivência, às custas de um trabalho insano e espoliativo, o qual, tirava-lhe a liberdade e o sentido pleno do conceito. Ao propor um modelo econômico que excluísse as razões pelas quais o trabalhador coisificava-se, Marx, quer resgatá-lo como ser dotado de razão e de direitos naturais. Quer reestabelecer a ordem natural das coisas, uma vez que o humano é mais importante que a máquina e o lucro. Portanto, é possível apontar nas entrelinhas da Filosofia marxista a preocupação com o bem comum, a vida sã em comunidade, sobretudo resgatar o bem maior da Ética: a liberdade.
Se nos voltarmos para o cotidiano, verificaremos exatamente o oposto, a negação de tudo isso: a época que se nos apresenta, traz confisco de direitos básicos e históricos, agora travestidos em nome de uma necessária reforma, cujo teor é, extrair o pouco conquistado e mantido pelos trabalhadores, sem alterar os roubos, explorações e benesses da classe dominante, inatingível sob qualquer coisa nominada “crise”. Reforma-se aquilo que a incomoda, sem que tenha que abrir a mão, abdicar de migalhas. Os trabalhadores, novamente, seguindo o curso da História devem arcar com o ônus. O bônus continua com a elite. Pode-se roubar a previdência; pode-se lesar o erário; pode-se sucatear serviços públicos, produzindo ganhos exorbitantes àqueles que já tem amealhado muito, de forma escusa, ao longo dos tempos. A conta deve ser paga pelo trabalhador.
Tudo turbinado pelo viés ideológico. O caldo putrefato dessa malfadada receita é a exclusão. Dela, a resultante é a violência. Essa atinge a própria classe trabalhadora, combatida pelo aparato do Estado, bancado por ela. Para os “bacanas” do poder: a lei. Para beneficiá-los, no máximo puni-los com tornozeleiras. Cadeia somente para os pobres. Além de balas perdidas e impunidade. Usa-se, vagamente, os conceitos de honestidade, decência e pior, Ética, para orquestrar um golpe, a fim de deletar os poucos êxitos dos assalariados, inebriando-os com o poder da ideologia.
Solidificam-se no poder. Agora não se pode fazer nada, pois, colocará em risco a “economia”. Não se pode “desestabilizar o país”. Mas, não era sobre a Ética em Marx que versaria essa coluna? Pois é, todavia, não tratei disso?