Ando com preguiça de escrever. E, confesso, quando estou a voltas com essa preguiça ponho em xeque se vale ou não a pena continuar uma coluna semanal. Aliás, sinto mais prazer com meus pequenos conflitos diários do que com a conclusão de um texto propriamente dito.
Escrever é uma tarefa difícil. Ser compreendido seria pedir muito. Exemplo disso foi ver o Ministro da Educação (?), Mendonça Filho, ordenar que se recolhessem milhares de exemplares de um livro didático previamente já aprovado pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD).
Tudo em razão do conto A Triste História da Eredegalda – que, segundo o autor José Mauro Brant, tem origem na literatura oral popular brasileira. O conto narra a história de um rei que quer se casar com uma de suas três filhas e, a escolhida, renegando o desejo do pai, é castigada e morre de sede.
Em entrevista ao jornal El País (28/06), Brant disse que “o Brasil vive uma crise de inteligência” e que é “muito melhor que as crianças entrem em contato com os temas difíceis através da literatura do que na rua... a leitura nunca pode ser uma ameaça”.
“No caso concreto do conto dele sobre o rei e sua filha, fica claro, segundo o autor, que as crianças se identificam com a menina castigada e desprezam o pai. E os alunos têm a oportunidade de escrever outros finais para a história”, reportou o jornal.
“Toda essa polêmica me surpreendeu. Primeiro recebi mensagens de professores incrédulos, e de repente um rio de mensagens de ódio. Por um lado os pentecostais me desejando o fogo dos infernos, e por outro ameaças de morte de grupos de extrema direita”, disse ainda Brant.
E continua: “não sabem que os contos de tradição oral em todos os tempos são palco de assuntos delicados. Existem justamente para alertar sobre os perigos do mundo”.
E conclui sabiamente: “O segredo é a mediação, e cada vez nossas políticas de leitura no Brasil se preocupam mais com a compra e venda de livros do que com a capacitação de mediadores de leitura e com a formação de leitores”.
Não me espanta que em outro texto, dessa vez publicado na Folha de SP (02/07), cujo título Editoras Recorrem a Representantes de Minorias para Evitar Ofensas em Livros só reforça a questão da importância mercadológica do livro citada acima por Brant.
Em síntese, os supostos representantes das minorias ganham para ler e apontar “desvios preconceituosos”. Na matéria, alguns desses representantes explicam seu modo de avaliar uma obra. Pena que as falas de cada um soam pouco convincentes.
Em A Literatura e o Mal, de Georges Bataille (tão necessário quanto difícil e chato de ler), nota-se que o percurso da literatura é, na maioria das vezes, de transgressão.
Portanto, um mesmo livro tido como imoral ou “irresponsável” numa época acaba por ser tornar um clássico para a geração seguinte. E Bataille dá exemplos disso: Sade, Proust, Kafka – hoje todos estudados nas melhores universidades e ensinados (entenda-se recomendados) nas melhores escolas.
Se Bataille fosse vivo, diria que tanto a questão do livro recolhido pelo Ministro da Educação (?) quanto a nomeação do cargo de “representantes das minorias” simboliza um surrealismo levado às últimas consequências.
Fico por aqui. Quem sabe tomo ânimo e retorno na semana que vem.