“Foi aqui, nessa sala, que o Joaquim se levantou um dia durante o processo da busca, da pesquisa e foi ao quadro negro, apanhou um giz e escreveu NINA e, quando acabou de escrever, ele deu uma gargalhada nervosa que quase não terminava e eu disse: Joaquim, o que há contigo? Ele riu, olhou para mim e disse: Puxa, NINA é o nome de minha mulher! Eu hoje ainda me sinto profundamente emocionado pela significação simbólica; eu percebia nos olhos deles, nas caras deles uma espécie de alívio centenário, é como se estivessem sacudindo para fora uma pedra de cima dos ombros que, há séculos, repousava neles e eu percebi o gosto da briga, o gosto da luta para superar o obstáculo” (relato do educador Paulo Freire – Patrono da Educação Brasileira).
Essa declaração é do grande educador Paulo Freire ao alfabetizar um adulto que se emocionou por escrever, pela primeira vez, o nome de sua esposa. Freire desenvolveu um método de alfabetização de adultos e acreditava que esse processo “estimulava a inserção do iletrado em seu contexto social e político, na sua realidade, promovendo o despertar para a cidadania plena e transformação social”.Outro que acreditava nessa máxima foi o famoso ambientalista e seringueiro Chico Mendes, que procurou se alfabetizar primeiro para depois ajudar os colegas seringueiros, pobres e analfabetos da sua região, a também se alfabetizarem e, assim, defenderem-se de forma mais eficiente da exploração trabalhista promovida pelos patrões e donos dos seringais no estado do Acre.
O analfabetismo é uma chaga, uma vergonha para qualquer país e, no Brasil, apesar da queda em sua taxa na última década, o recuo ainda é lento, pois, em 2005, 11,1% da população brasileira com mais de 15 anos não sabia ler e escrever. Em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse percentual caiu para 8%. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada no dia 25 de novembro de 2016 pelo IBGE, o país apresenta12,9 milhões de analfabetos. Mais da metade dos analfabetos tinham idade superior a 60 anos (6,5 milhões de pessoas que não sabiam ler e escrever eram idosas). Outros 34,2%, ou 4,4 milhões de pessoas, tinham de 40 a 59 anos. Esses dados indicam, segundo Maria Lúcia Vieira, gerente do Pnad, que o analfabetismo está concentrado entre os mais velhos, “reflexo de estoque de brasileiros que não receberam educação formal adequada no passado”.
Imagine o dia a dia de uma pessoa analfabeta. A todo momento, depara-se com letras e frases indecifráveis para ela em fachadas de prédios comerciais, receitas de bolos, bulas de remédios, placas de trânsito, cardápios de restaurantes, lista telefônica e em outras ocasiões rotineiras; é como viver em um país cujo idioma fosse completamente desconhecido e, as letras,ideogramas estranhos. De certa forma o cidadão fica alijado da sociedade, transformando-se em um verdadeiro “cego social”, pois enxerga as letras, palavras e frases, mas não as compreende, dependendo de outras pessoas para realizar a leitura básica. E veja que, no caso de um idioma que o alfabetizado não domina, ele ainda pode recorrer a um dicionário e, atualmente, aos tradutores automáticos na internet. No entanto, não existem recursos similares para analfabetos, ou um dicionário para iletrados.
O analfabetismo não é apenas um grave problema de natureza educacional, mas também social e político, pois a população considerada analfabeta sofre com outros problemas que atingem o país. “Se você fizer o mapa do analfabetismo no Brasil, ele vai coincidir com o mapa da fome, com o do desemprego e da alienação. Não raro esse analfabeto é o que fica doente, o que passa fome, o que vive de subemprego”, afirma a pedagoga Silvia Colello, pesquisadora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) em um artigo denominado: “Analfabetismo no Brasil evidencia desigualdades sociais e históricas”, publicado no site da internet intitulado “Inclusive – inclusão e cidadania” em 14 de fevereiro de 2012.
O analfabetismo é algo tão depreciativo que seu termo derivado “analfabeto”é uma expressão pejorativa, um “quase xingamento” quando dirigido a qualquer pessoa. Isso denota que a dignidade de um cidadão adulto não pode ser completa caso ele seja um iletrado. Por isso, é um dever constitucional do Estado sempre implantar políticas públicas que priorizem a erradicação desse problema, sem se privar da oferta de uma educação de qualidade, universal e gratuita a toda a população. Fazendo assim, espera-se que nunca mais um adulto venha a escrever, pela primeira vez, o nome de sua esposa ao ser alfabetizado em idade tardia – fato presenciado pelo grande educador Paulo Freire.