É sabido o decreto da “ex-presidente” Dilma Roussef sobre como “queria” ser chamada: “Presidenta” e, desde então, não me tenho contido. Embora o termo não seja incorreto, não nos parece afeito às tendências da língua portuguesa. Ferreira (1999)[i] esclarece: “Presidenta. [feminino de presidente.] S. f. 1. Pessoa que preside. 2. Mulher do presidente”. E, em seguida: “Presidente. [Do latim praesidente.] S. 2 g. 1. Pessoa que preside”.
O termo “presidente” é herança do “particípio presente” dos verbos latinos[ii]. Não cabe, aqui, tecer muitas considerações acerca das quatro conjugações dos verbos latinos nem das cinco declinações que reúnem substantivos e adjetivos latinos; limitar-me-ei à essência e ao interesse da proposta. Apenas o conveniente!
Por analogia, outras palavras com verbos em suas origens, como “estudante, constituinte, abrangente, ouvinte”, são formas invariáveis no gênero singular, empregadas, portanto, para os dois gêneros gramaticais (masculino e feminino).
O termo “presidente” se alinha nesse mesmo raciocínio: do verbo “praesideo [prae + sedeo], sedi, sessum, ere” (formas primitivas, 3ª declinação latina – presidir, em português) originou-se o particípio presente praesidens, -ntis (adjetivo uniforme,3ª declinação), de que decorreu a palavra portuguesa presidente (substantivo/ adjetivo, com o sentido de aquele que preside, ocupa o primeiro lugar, tem a presidência), FORMA COMUM aos dois gêneros no singular[iii], sem a necessidade de “impor” uma forma específica para o feminino.
Como “presidenta”, que até pode soar com tom depreciativo, palavras há que não “colaram” no gosto popular: mergulharam em desuso devido a seus sons “desagradáveis”ao ouvido ou maliciosamente “sugestivos”– o que lembra Dona Bela, personagem da Escolinha do Professor Raimundo, com seus chiliques, e faniquitos, e desmaios figurativos quando ouve palavras desse naipe, culminando com um sonoro e bem pausado “só pensa naquilo!”, arregalando os olhinhos marotos e apetitosos. Apenas para citar outras expressões comuns: “vou participar de um ‘convescote’ entre colegiais. / Na feira, vi um ‘quiproquó’ danado! / Ela ‘chupitava’ um pirulito na aula.../ Você ainda usa ‘ceroulas’?”.
Foi necessário um Decreto Presidencial[iv] para “impor” o uso da palavra. A bem da verdade, a palavra “presidenta” aparece dicionarizada, em analogia a chefa, generala etc., para designar aquela que ocupa o cargo da presidência, em especial, o da presidência da República. Mas – convenhamos – é palavra empregada com certo laivo depreciativo se se considerar que ninguém, em sã consciência, diria “estudanta, constituinta, abrangenta, ouvinta” e assim por diante, a menos que gostaria de ser alcunhado de “anta”[v]! A palavra cristalizada na fala é, sem dúvida, “presidente” (para os dois gêneros, como bem sói na fala popular), enquanto “presidenta” soa como estranheza, narcisismo, hedonismo, manifesto autoritarismo, “rompante” pessoal, teimosa vontade de ser chamada, reconhecida e perpetuada como “presidenta”. E o pior: não “colou” no gosto popular nem mesmo nos “discursos dos parlamentares”, principalmente de seus subservientes correligionários – que seriam a via oficial para a cristalização do termo.