Amadeu Jesus Pe

Olá, ex-Presidenta! Virou linguista?

Olá, ex-Presidenta! Virou linguista?

Por Amadeu Jesus Pessotta

Por Amadeu Jesus Pessotta

Publicada há 8 anos

É sabido o decreto da “ex-presidente” Dilma Roussef sobre como “queria” ser chamada: “Presidenta” e, desde então, não me tenho contido. Embora o termo não seja incorreto, não nos parece afeito às tendências da língua portuguesa. Ferreira (1999)[i] esclarece: “Presidenta. [feminino de presidente.] S. f. 1. Pessoa que preside. 2. Mulher do presidente”. E, em seguida: “Presidente. [Do latim praesidente.] S. 2 g. 1. Pessoa que preside”.

 

O termo “presidente” é herança do “particípio presente” dos verbos latinos[ii]. Não cabe, aqui, tecer muitas considerações acerca das quatro conjugações dos verbos latinos nem das cinco declinações que reúnem substantivos e adjetivos latinos; limitar-me-ei à essência e ao interesse da proposta. Apenas o conveniente!

 

Do verbo latino “amo, as, avi, atum, are” (formas primitivas, 1ª conjugação latina – amar, em português) adveio o particípio presente “amans, -ntis” (adjetivo uniforme, 3ª declinação), que deu origem à palavra portuguesa amante, FORMA INVARIÁVEL no singular (substantivo/adjetivo como em a mulher amante, o homem amante – adjetivo, ou o amante e a amante – substantivo). Do verbo “audio, is, ivi, itum, ire” (formas primitivas, 4ª conjugação latina – ouvir, em português) adveio o particípio presente audiens, -ntis (adjetivo uniforme, 3ª declinação), que originou a palavra portuguesa ouvinte (adjetivo/substantivo), FORMA COMUM aos dois gêneros no singular. De “cado, is, cecidi, casum, ere” (formas primitivas, 3ª conjugação latina – cair, em português) surgiu o particípio presente cadens, -ntis (adjetivo uniforme,3ª declinação), que deu origem à palavra portuguesa cadente (adjetivo/substantivo – não confundir com “candente”), FORMA INVARIÁVEL no singular.

 

Por analogia, outras palavras com verbos em suas origens, como “estudante, constituinte, abrangente, ouvinte”, são formas invariáveis no gênero singular, empregadas, portanto, para os dois gêneros gramaticais (masculino e feminino).

 

O termo “presidente” se alinha nesse mesmo raciocínio: do verbo “praesideo [prae + sedeo], sedi, sessum, ere” (formas primitivas, 3ª declinação latina – presidir, em português) originou-se o particípio presente praesidens, -ntis (adjetivo uniforme,3ª declinação), de que decorreu a palavra portuguesa presidente (substantivo/ adjetivo, com o sentido de aquele que preside, ocupa o primeiro lugar, tem a presidência), FORMA COMUM aos dois gêneros no singular[iii], sem a necessidade de “impor” uma forma específica para o feminino.

 

A forma “presidenta” não parece ter “caído nas graças do povo”, não “pegou na fala popular” para designar a chefa da Nação nem parece benquista e “digerível” pelo gosto popular. Seria melhor empregar a forma “presidente” – Adj2gên. (adjetivo de dois gêneros) e S2g (substantivo de dois gêneros) já cristalizada e aplicada por todas as vias de comunicação e na linguagem popular (FERREIA, 1999).

 

Como “presidenta”, que até pode soar com tom depreciativo, palavras há que não “colaram” no gosto popular: mergulharam em desuso devido a seus sons “desagradáveis”ao ouvido ou maliciosamente “sugestivos”– o que lembra Dona Bela, personagem da Escolinha do Professor Raimundo, com seus chiliques, e faniquitos, e desmaios figurativos quando ouve palavras desse naipe, culminando com um sonoro e bem pausado “só pensa naquilo!”, arregalando os olhinhos marotos e apetitosos. Apenas para citar outras expressões comuns: “vou participar de um ‘convescote’ entre colegiais. / Na feira, vi um ‘quiproquó’ danado! / Ela ‘chupitava’ um pirulito na aula.../ Você ainda usa ‘ceroulas’?”.

 

Foi necessário um Decreto Presidencial[iv] para “impor” o uso da palavra. A bem da verdade, a palavra “presidenta” aparece dicionarizada, em analogia a chefa, generala etc., para designar aquela que ocupa o cargo da presidência, em especial, o da presidência da República. Mas – convenhamos – é palavra empregada com certo laivo depreciativo se se considerar que ninguém, em sã consciência, diria “estudanta, constituinta, abrangenta, ouvinta” e assim por diante, a menos que gostaria de ser alcunhado de “anta”[v]! A palavra cristalizada na fala é, sem dúvida, “presidente” (para os dois gêneros, como bem sói na fala popular), enquanto “presidenta” soa como estranheza, narcisismo, hedonismo, manifesto autoritarismo, “rompante” pessoal, teimosa vontade de ser chamada, reconhecida e perpetuada como “presidenta”. E o pior: não “colou” no gosto popular nem mesmo nos “discursos dos parlamentares”, principalmente de seus subservientes correligionários – que seriam a via oficial para a cristalização do termo.

 

O fato é que a medida obrigou a que se parassem máquinas e se corrigissem, a jato,diplomas e dicionários da língua portuguesa. Como Dilma foi “presidenta” por decreto, eu também quero, agora, ser chamado de jornalisto, articulisto, colunisto, juristo, dentisto, congressisto, romancisto, comunisto, sindicalisto...

 


   

 

[i] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio século XXI – o dicionário da língua portuguesa. 3. ed. rev. ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 2.128p.

 


 

 

[ii]O particípio presente, que já existiu na língua vernácula, é uma das formas nominas dos verbos latinos, isto é, apesar de procederem de verbos, são declinadas como adjetivos (uniformes, biformes ou triformes). Por exemplo, uma forma nominal de “nascor, natus sum” (verbo depoente) é “nasciturus, a, um” (adjetivo triforme), que deu origemà palavra portuguesa “nascituro”, com o sentido de “aquele que está para nascer”.

 


 

 

[iii] TORRINHA, Francisco. Dicionário latino-português. 3. ed. Porto (Portugal): Maranus, 1945. 947p.

 


 

 

[iv] Lei 12.605/2012. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12605.htm>

 


 

 

[v] Admite-se o trocadilho jocoso, irônico!

 

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