Jacqueline Ruiz

Vale Tudo

Vale Tudo

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Professora

Publicada há 8 anos

O noticiário político do Brasil poderia ser apelidado de “Vale a pena ver de novo”, título da sessão de reprises das telenovelas exibidas pela Rede Globo desde 1980. Afinal, a série de escândalos de corrupção, compra de votos por apoio político e as propostas mirabolantes de reformas seguem com algumas variações, mas sem muitas novidades no desfecho. 


Não me atrevo mais assistir aos telejornais e muito menos perco tempo procurando leituras de análises políticas. É quase tudo a mesma coisa: local, cenário, roteiro. E os atores? Quase sempre os mesmos. O pior é que nem “pinta” de galã eles têm!

Melhor seria reapresentar as novelas. Audiência e diversão garantidas.

Gabriela, O bem amado, Saramandaia, Que rei sou eu? ou Roque Santeiro, estariam com certeza em minha lista de preferidas. Mas a primeiríssima, com certeza, é Vale Tudo.


“Não me convidaram pra esta festa pobre que os homens armaram pra me convencer a pagar sem ver toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer...”. A frase inicial é da música “Brasil”,interpretada por Gal Costa na canção de abertura da novela.  A música – composição de Cazuza, Nilo Romero e George Israel – e a novela – escrita por Gilberto Braga em parceria com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères – foram escritas ao final da década de 1980.


O diálogo entre a eterna vilã Maria de Fátima (Glória Pires) e o avô Salvador (Sebastião Vasconcelos) no início da trama é emblemático: Maria de Fátima pede ao avô, funcionário da Aduana, que libere, em troca de suborno, a entrada de videocassetes para um amigo. Ele recusa: " – Quem deixa passar mercadoria sem pagar imposto está prejudicando o Brasil". Ela então replica: " – O país já foi à falência econômica e moral. Isso aqui é um país de trambiqueiro. Vai conseguir o quê com sua honestidade? Ninguém presta, ninguém vale nada, ninguém cumpre lei nenhuma. De uma maneira ou de outra, aqui nessa terra todo mundo é corrupto". O avô se mantém firme: " – Eu não quero ser conivente com essa polícia corrupta, com esse sistema penitenciário horrível, feio, imundo, triste. Princípio, dignidade e honra não são princípios abstratos. Quando eu morrer, eu queria muito te deixar de herança princípio, dignidade e honra". 


Maria de Fátima, com a morte do avô, vende a casa que ele lhe deixou de herança, abandona a mãe na miséria e parte para o Rio de Janeiro em busca de fama e fortuna. Se envolve em várias tramoias, casa com o milionário Afonso Roitman e tem caso com outros homens, dentre eles o vice-presidente da empresa da família, Marco Aurélio (Reginaldo Faria).


Este dá um golpe na empresa, foge do país com a esposa assassina e, na antológica cena final, dá uma “banana” para o Brasil a bordo de seu jatinho particular.


A maior “reflexão” da novela ficou por conta do mistério acerca do assassinato da milionária-vilã interpretada por Beatriz Segall; exatos treze dias dominaram o país com a pergunta: “Quem matou Odete Roitman?”.


E nossa classe política continua repetindo o roteiro, pelo menos as novelas tem mais glamour!

 

 

Em artigo publicado pela Lua Nova – Revista de cultura e política (edição online: http://www.scielo.br/pdf/ln/n82/a04n82.pdf), intitulado “Telenovelas e interpretações do Brasil”, a professora do Departamento de Cinema, Radio e Televisão da USP, Esther Hamburguer aborda brilhantemente o tema. Vale a leitura.


últimas