Leitora contumaz – leio tudo que me vem às mãos e aos olhos –, sempreme dedico a tal tarefa, afinal, portadores de texto é que não faltam em casa.Época houve que recebíamos jornal diário, revista semanal e duas mensais: uma era para mulheres, até no nome,a outra (para espanto da maioria) famosa revista masculina era presente meu parao marido. Nus à parte, matérias e entrevistas sempre me interessavam também.Quando chegaram os filhos acrescentamos gibis e outras publicações a eles destinadas. Atualmente recebemos diariamente “OExtra.net”e a Folha de São Paulo.
Confesso que, pela falta de tempo e também de interesse, do grande jornal diário leio somente seletas matérias de alguns cadernos. Maior atenção é reservada ao periódico de nossa região, principalmente as quintas, que trazem as colunas dos confrades. Chamou-me a atenção inusitado anúncio publicado no caderno “Atos Oficiais”: o sexagenário X. L. que procurava senhora parasério relacionamento.
As interrogações acerca do anúncio são várias. Será que as mulheres (ou qualquer pessoa) não estão mais a fim de coisas sérias? Será extemporâneo, em tempos de rede mundial, anunciar em jornal impresso uma intenção de relacionamento Dentre as variantes possíveis, impertinente indagação me incomoda e imediatamente me vem à lembrançatrecho do belíssimo Soneto de Fidelidade:
...E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama....
Senhor X. L., fosse você político ou artista ou fosse eu pessoa afeita aos grandes vícios da indústria do consumo, palpitaria que lhe falta estratégia de marketing ou coisa parecida. Como não somos ambos, nem uma coisa nem outra, resolvi publicar minhas aflições na vã esperança que alguma “SENHORA, com idade entre 50 e 60 anos” leia as sementes lançadas nos meus “Canteiros” e que se digne a ler sua proclamação na página desse jornal e de posse dos números dos celulares do anúncio, lhe procure. No mais, ficarei pedindo a Deus para que o relacionamento medre e lhe desejo ardentemente a avassaladora vivênciadas outras três restantes estrofes que o “Poetinha” Vinicius de Moraes traduz no já citado soneto:
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento...
....Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.