A escolha do título não é aleatória: é uma referência a película dirigida por Louis Malle, grande nome do cinema francês, grande diretor.
A coluna de hoje versa sobre o tema. Atuação e dramaturgia. A razão é triste. Ontem noticiou-se a morte da atriz francesa Jeanne Morreau. Hoje, li na Folha de São Paulo o anúncio da morte do dramaturgo e ator Sam Shepard.
A atriz é um dos maiores ícones do cinema no geral, em particular do europeu. Faleceu ontem aos oitenta e nove anos.
Recordo-me de uma entrevista com o poeta, jornalista e letrista Torquato Neto, na qual perguntaram-lhe seus ator e atriz preferidos. Respondeu: Jeanne Morreau e Toshiro Mifume.
Jeanne Morreau, bela, culta, feminista e, acima de tudo, um espírito livre. Atuou sob às lentes dos maiores nomes da direção cinematográfica: Antonioni, Buñel, Brook, Truffaut e, Carlos Diegues. Sim, foi dirigida por Cacá na película “Joana Francesa”. Drama centrado no Nordeste Brasileiro, num engenho de açúcar, cujas relações de poder, metaforicamente, escancaram os tempos sóbrios da ditadura militar.
Produção impecável: músicas de Chico Buarque, cantadas pela própria diva francesa, além de Nara Leão e Fagner. Contava no elenco com a brilhante Lélia Abramo e um dos ícones do cinema novo: Eliezer Gomes, astro da obra “Assalto ao Trem Pagador” de Roberto Farias.
A estrela francesa filmou “A Noite”, clássico de Antonioni, filme heideggeriano, belo, com o olhar singular do mago italiano. Edulcorado pela diva.
Com Buñel trabalhou em “O Diário de uma Camareira”, drama intimista, com fortes doses de sensualidade, bem ao estilo e olhar do gênio andaluz. Com Jeanne o filme é ainda maior.
Book dirigiu-a em “Duas almas em Suplício”, com o qual ganhou a Palm D’Or de Cannes em 1960.
Por fim: o que dizer de “Jules e Jim”, antológica obra da Nouvelle Vage, e a “A Noiva Estava de Preto”, ambos de Truffaut. No primeiro encara uma mulher livre e moderna – ela própria -, no segundo, uma assassina. A cena da corrida dentro do Louvre é antológica.
Quanto a Shepard, conheci-o por meio das lentes de Wim Wenders em “Paris, Texas”, um dos autores do roteiro. Por ser um dos filmes da minha vida, fui assistir à peça “Louco de Amor”, no Brasil dirigida por Hector Babenco. Chapei!
O texto de Shepard segue a tradição dos grandes escritores norte-americanos: frases curtas, secas, densas. Sua temática é o drama psicológico, longos e pesados monólogos. Os textos possuem uma aridez do deserto. São cortantes. Mantém a rica tradição dramatúrgica de Arthur Miller, Tennenssee Willians e Eugene O’Neill.
Também foi ator em filmes marcantes. Dentre ele: “Frances”, protagonizando-o ao lado da esposa Jessica Lange, ou no papel do escritor Dashiell Hammett.
Com ambos vai uma era, uma época de ouro e rica da história do cinema. Deixando-a mais cinza e pobre. Provocando a sensação da aproximação de fim.
Qual atriz contemporânea possui a estatura, a magnitude, a dramaticidade, a imanência de Jeanne Morreau?
Qual o dramaturgo pode assumir o legado de Shepard? Quem é capaz de trazer o Mojave, os dramas interiores dos cowboys como ele?
Parece que agora resta somente Clint Eastwood.
Aguente Clint!
O cinema precisa de você.
Hoje, mais do que nunca entendo a resposta de Torquato Neto.
Boa parte da “mística”, do ouro do cinema se foi.